Editorial – Alternativa Socialista (PSOL) / LIS Brasil

Este difícil 2021 e o próximo ano podem ser decisivos ao PSOL, partido que construímos. Ou o partido continua com seu programa fundacional, mesmo que deformado a conta-gotas pelo setor majoritário – hoje denominado “PSOL de todas as lutas” –, ou rasga os princípios que deram origem ao partido, um esforço de superação do petismo, e se afunda de vez no atoleiro da frente ampla com setores burgueses. Os companheiros Guilherme Boulos e Marcelo Freixo parecem ser os maiores entusiastas dessa opção.

É duro lembrar da ironia lançada por Marx em sua obra sobre Luís Bonaparte, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Sem dúvidas esta é a melhor forma de entender o que está acontecendo com as escolhas políticas de Boulos que, há poucas semanas, realizou uma reuniãoi com o Deputado Federal Marcos Pereira, presidente do Republicanos, partido conservador da IURD e base da extrema-direita bolsonarista, legenda do Senador Flávio e do Vereador Carlos, filhos de Jair Bolsonaro. A justificativa de “reconstruir as pontes” entre a esquerda e os setores evangélicos nos parece mais uma cegueira desesperada de garantia eleitoral, uma possibilidade real. Se, como diz o próprio Boulos, “queremos que a luta contra a desigualdade e por justiça social ganhe mais força nas periferias do Brasil” ii, nossos últimos aliados deveriam ser os líderes reacionários da Igreja Universal.

Não é preciso ir muito longe para lembrarmos o fracasso histórico da política de frente ampla. A defesa da aliança com setores burgueses “progressistas” – experimentada pelos governos petistas – como o único caminho de “governar para todos”, mesmo que eleitoralmente vitoriosa, significou em seu último ato uma grande derrota para o povo e o processo de organização da classe trabalhadora. O chamado pela confiança num governo conjunto com uma classe inimiga da maioria popular resultou, na prática, em se ajoelhar aos donos do capital em nome da ilusão da conciliação de classes e da “paz social”.

Boulos e Freixo, apoiados por pela direção majoritária de nosso partido, estão dispostos a garantirem suas vagas no executivo nas eleições do próximo ano. No caso de Boulos, sinalizando ao PT ao abrir mão de dispor seu nome enquanto pré-candidato à presidência pelo PSOL e autoproclamando sua “pré-candidatura” ao governo de SP. Já com Freixo, as conversas giram do PT, reunindo-se com Lula e Haddad, até um aceno ao DEM de Rodrigo Maia, o articulador da Reforma da Previdência que hoje condena uma parcela da população a não poder se aposentar.

Os mais sinceros podem afirmar que é uma unidade necessária para derrotar o governo genocida de Bolsonaro e que, para barrar este monstro desumano que ocupa o Palácio do Planalto, todos os meios são necessários. Mas a verdade é que Lula, com uma enorme influência popular, ao mesmo tempo em que abre os caminhos para sua candidatura em 2022, fecha os caminhos para uma unidade neste ano de 2021 contra o nosso inimigo número 1, o governo Bolsonaro: mais de 400 mil mortes; a ausência de vacinas necessárias; as reformas impopulares, como a Reforma Administrativa que, se aprovada, significará o fim de um direito histórico que é a estabilidade, uma salvaguarda contra a corrupção politiqueira; os projetos de privatizações de patrimônios nacionais como os Correios, Banco do Brasil, etc.

Confrontar o governo Bolsonaro e Mourão hoje

Pouco tempo após assumir o governo, Bolsonaro abriu um processo de perda de base social e enfraquecimento político, confirmando que era mais um governo de crise crônica. As tarefas dos ajustes e reformas que também lhe ajudaram a ser o escolhido de parte importante da burguesia, se mostraram ainda mais complexas. Seu isolamento o levou a desembarcar do PSL por um auto-projeto partidário falido, o Aliança “pelo Brasil”. A chegada da pandemia da Covid-19 agravou a situação e confirmou que este governo está nas mãos de um lunático que só perde musculatura política. 

Uma das explicações para a permanência de Bolsonaro no governo acontece, por um lado, pela crise de uma alternativa burguesa puro sangue e, por outro, a política de Lula, que se postula como opção do capital, do PT e de toda a centro-esquerda em deixarem Bolsonaro sangrar até as eleições em 2022. Ambas as direções (à direita e à esquerda) compartilham uma mesma política: manter Bolsonaro no governo até onde for possível, para concluir as reformas impopulares pendentes e, nas eleições presidenciais, aparecer como “redenção” ao povo que morre aos milhares de Covid-19 e sofre pela fome. Não queremos mais vidas perdidas!

Reafirmamos a urgência de tirar o governo Bolsonaro hoje, não em 2022. Unificar as lutas de diferentes setores da classe trabalhadora e direcionar a raiva que hoje se acumula na maioria do povo contra este governo. Para isso, não acreditamos que o caminho seja convocar líderes da direita e empresários para o Ato do 1º de Maio, um dia que deve ser de luta contra os ataques a nossa classe. Também não deve ser pela confiança somente na via eleitoral, deve ser pela confiança na mobilização popular. Para isso, é necessário que os partidos, as centrais sindicais e os movimentos sociais de nossa classe toquem uma grande Greve Geral pela vida e por nossos direitos.

Só há uma saída: pela esquerda e pelo socialismo

O giro equivocado que os companheiros Boulos, Freixo e setores do PSOL realizam está afundando o nosso partido, nascido da luta contra a política pró-capital do PT, no atoleiro da frente popular. Está dando o recado à classe trabalhadora de que é possível confiar nos patrões, de que não necessitamos de independência de classe. Nós, da Alternativa Socialista, parte do Bloco da Esquerda Radical, não queremos repetir a história como farsa. Seguimos na batalha decisiva por um PSOL independente, de luta e anticapitalista. Temos uma tarefa fundamental de botar pra fora todo o governo Bolsonaro e não podemos vacilar. Convocamos as lutadoras e os lutadores a somarem conosco.

Notas:

i http://alternativasocialista.com/boulos-com-republicanos-a-velha-receita-petista-da-frente-ampla-com-a-direita/

ii https://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2021/04/a-esquerda-e-os-evangelicos.shtml