O FIT-U pode agir em grande

Por Sergio García, dirigente do MST / Mesa nacional da FIT-U

A situação no mundo, em nosso continente e no país, é de prosseguimento de uma crise sanitária, econômica e social que atinge com grande força milhões de famílias trabalhadoras e jovens. Os capitalistas e seus governos tentam descarregar a crise gerada por eles em nossas costas. Para isso, têm seus próprios partidos patronais, os organismos internacionais de crédito, como o FMI e o Clube de Paris, para nos submeter e endividar, e as burocracias sindicais cúmplices para facilitar os ajustes.

Diante disso tudo, o mundo sopra ventos de luta, de polarização social e política e de novos fenômenos. Em nossa região, isso se expressou com fortes mobilizações e rebeliões, como aconteceu primeiro no Chile e depois na Colômbia. E no plano eleitoral, o desejo de mudança e a busca pela saída à esquerda foram evidentes tanto no eleitorado chileno como recentemente no Peru.

Dessa forma, nosso país entra nos meses anteriores às eleições e pouco mais de um mês após o encerramento para a apresentação de alianças. Em meio a isso acontecem lutas operárias e populares que contam com todo o nosso apoio, pois só à esquerda promoveremos reivindicações genuínas de não haver compromisso com os governos nacionais e provinciais, responsáveis pelo ajuste em curso.

Fortalecer uma alternativa de esquerda

Enquanto continuamos a construir esses processos e a unificá-los na rua – como faremos novamente nesta sexta-feira, dia 11 de junho, indo à Plaza de Mayo com vários setores operários, classistas e piqueteiros – a tarefa do momento é fortalecer  alternativa de esquerda, anticapitalista e socialista com força para disputar em grande escala a retrógrada direita do Juntos por el Cambio e ante a Frente de Todos que, além dos alguns discursos, mantém a mesma estrutura econômica desigual e de ajustamento que herdou do Macrismo, com as mesmas corporações controlando a produção de alimentos, o agronegócio poluindo e privilegiando seus lucros, com a mesma destruição de nossos bens comuns e uma deterioração dos salários elevando a pobreza.

Por esta tarefa de ser uma alternativa, à nossa frente, a FIT-Unidad, tem uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo uma grande oportunidade política.

A responsabilidade é convocar amplamente o fortalecimento de um polo unitário à esquerda da crise, para que uma terceira via a favor da classe trabalhadora, das maiorias populares e da juventude cresça. Nessa convocação, a oportunidade que temos é justamente mostrar que estamos realmente andando com todos e sem nenhum tipo de sectarismo, para colocar a esquerda em uma grande disputa.

Debates em andamento

Existem debates dentro da FIT-U que logicamente continuarão a se desenvolver nas próximas semanas. Pela proximidade dos prazos eleitorais, um deles é sobre como compor as listas.

A esse respeito, o camarada Gabriel Solano, líder do PO, respondeu dias atrás a um artigo de minha autoria, onde questiona nossa proposta que aponta a possibilidade de ir a PASO [Eleições primárias obrigatórias] se não houver acordo sobre a formação das listas. Em sua resposta, entre outras coisas, ele diz: 

“Em relação às listas, já indicamos que somos a favor do acordo de listas comuns, pois na verdade já o alcançamos na grande maioria das vezes. As bases de um acordo já existem, e foram elas que nos permitiram fazer apresentações unitárias nas eleições de 2019… A composição das listas deve permitir que um trabalhador diga: nós que defendemos a classe trabalhadora estamos na FIT-U e as demais listas defendem os capitalistas. Uma competição de 4 listas na PASO fecha essa possibilidade. Centraliza um debate interno que nos desacredita diante dos trabalhadores… É importante que a Frente de Izquierda – Unidad trate da questão eleitoral não com o viés mesquinho de pedidos inadequados dos partidos que a compõem.”

Essas afirmações não são apenas muito tendenciosas, mas, acima de tudo, erradas.

Por um lado, porque a base do acordo de 2019 de que fala Solano nada tem a ver com a realidade em 2021, há outra situação em geral, outra situação de maior fragilidade do PO em particular, e necessariamente deve haver outro acordo. Negar isso é negar a realidade.

Ao mesmo tempo, se tivéssemos que ir para a PASO, isso não deveria ser sinônimo de confronto “que nos desacredita diante dos trabalhadores”. É o oposto. Poderíamos muito bem oferecer a milhões de trabalhadores a possibilidade de ver todas as propostas positivamente, optando e decidindo entre centenas de milhares como são formadas as nossas listas para as eleições gerais, em vez de o fazermos entre algumas pessoas numa negociação onde muito provavelmente não haverá acordo, porque alguns querem ignorar as mudanças na realidade dos últimos dois anos e alegar “pedidos inadequados mesquinhos”.

Ao mesmo tempo, se há um silência na resposta que PO nos dá, é a necessidade de convocar amplamente para fortalecer a unidade de toda a esquerda, algo claramente necessário para enfrentar com mais força todos os partidos patronais e as vertentes possibilistas-reformistas.

A FIT-Unidad, sendo a maior unidade da esquerda com um programa muito profundo e correto, temos a responsabilidade de convocar todas as partes, figuras públicas e intelectuais que queiram fortalecer uma alternativa de esquerda com um programa substantivo, a somarem. Até agora, infelizmente, o Nuevo MAS e a “Tendência” do PO optaram pela divisão sem qualquer tipo de proposta unitária, apenas desqualificações sectárias à frente. No caso do Nuevo MAS e da sua representante, Manuela Castañeira, procuram mostrar uma suposta «renovação da esquerda», que nunca se consegue crescer a partir de uma pequena e limitada frente com Altamira e Ramal.

Não é com acordos conjunturais ou com personalismos que a situação da esquerda pode ser renovada ou superada.

Nossa proposta

O MST, que constrói a FIT-U, propõe outro caminho: promover a maior unidade possível e garantir todos os mecanismos democráticos necessários. Nesse sentido, fazemos um apelo a Luis Zamora e a AyL, ao Nuevo MAS e à “Tendência” de PO, as figuras públicas, ambientais, feministas, intelectuais e de direitos humanos, a todos aqueles que querem fortalecer um projeto anticapitalista e socialista, que façamos uma unidade maior da esquerda. E, se convocarmos uma grande unidade, não deve existir obstáculos que o impeçam. Entre muitas forças em geral, é muito difícil, senão impossível, chegar a um acordo na lista. Por este motivo, deve ser aberta também a possibilidade de uma grande PASO de toda a esquerda, onde tudo que se consiga seja distribuído na proporção dos votos de cada lista e sem qualquer tipo de restrição. Para que seja a realidade e o voto de milhares e milhares de trabalhadores e jovens que votarão nas listas para as gerais em novembro. Já é tempo na esquerda, e em particular na FIT-U, sermos grandes ao nível da situação e das necessidades de milhões de trabalhadores. Vamos abrir esse debate com profundidade.

Não há tempo a perder e muito a ganhar se realmente unirmos toda a esquerda. É a política mais útil e oportuna para confrontar com mais força todos os partidos capitalistas, fortalecer as lutas em curso e as que estão por vir. Que não haja desculpas, nem obstáculos antidemocráticos, nem rejeições divisionistas.