Por Camilo Parada, Movimento Anticapitalista – LIS Chile

O internacionalismo está de luto. Nos deixou, Luis Sepúlveda, escritor, jornalista, cineasta chileno, mas sobretudo, um grande lutador anticapitalista que comungava com um dos grandes princípios proletários: a solidariedade internacionalista.

Luis dizia de si mesmo que tinha nascido “vermelho, profundamente vermelho”. Desde tenra idade desenvolveu fortes inquietudes políticas e sociais, entrando a militar aos quinze anos na Jota, as Juventudes Comunistas do Chile, mas em plena convulsão de 1968 é expulso e integra-se à fração do Partido Socialista conhecida como Exército de Libertação Nacional. Estudou teatro na Universidade do Chile, onde se formou como diretor e depois se formou em Ciências da Comunicação na Universidade de Heidelberg, Alemanha.

Para Luis, a escritura era um ato de resistência, resistência que o acompanhou sem dúvida até a madrugada de hoje 16 de abril 2020, onde faleceu aos 70 anos depois de lutar contra o COVID-19 em Oviedo, sua cidade desde 1996. A resistência é parte integrante da essência do escritor chileno, opositor ativo à cruel ditadura capitalista de Pinochet. O tirano condenou-o a dois anos e meio de prisão, que foi comutada para prisão domiciliar graças às pressões internacionais, especificamente à constante insistência da secção alemã da Amnesty International. Uma vez cumprida sua pena, Luis passou à clandestinidade, mas novamente os aparelhos repressivos do regime ditatorial o cercaram pelo que teve que partir para um exílio que o levou por diferentes países de América do Sul. Depois de uma intensa jornada chega ao Equador, onde se concentrou em seus trabalhos de artes dramáticas e colaborou com a Unesco em um programa de proteção dos povos indígenas do Amazonas, de onde começa a escrever “O velho que lia novelas de amor”.

É em seu exílio equatoriano quando, movido por suas preocupações internacionalistas, se junta como voluntário em 1979 à Brigada Internacionalista Simón Bolívar, impulsionada pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) da Colômbia, organização parte da corrente internacional dirigida pelo revolucionário argentino Nahuel Moreno.  A história é conhecida, a Brigada Simón Bolívar foi expulsa da Nicarágua pelo governo sandinista de Ortega e entregue ao General Torrijos no Panamá, onde seus integrantes foram vítimas de graves torturas. Nahuel Moreno expressou nesse momento as causas da expulsão: “Concretamente, como relatado na imprensa mundial, a Brigada Simón Bolívar foi expulsa por: 1. Organizar sindicatos (cerca de 80) através de assembléias democráticas dos trabalhadores; 2. Promover a ocupação de terras pelos camponeses desabrigados; 3. Promover a organização de milícias populares e 4. Denunciar como burgueses alguns membros da Junta de Governo” [1]

Em 1980, Sepúlveda obteve asilo político na Alemanha, onde viveu por mais de 10 anos em Hamburgo, cidade na qual colaborou ativamente com o Greenpeace e se desenvolveu como correspondente da revista Der Spiegel. O Luis viveu nos anos 90 entre a Alemanha e a França. Em 1997 cria raízes em Gijón, na comunidade autónoma das Astúrias, onde funda o Salão do Livro Ibero-americano de Gijón.

No final de fevereiro deste ano, contrai COVID-19 enquanto se encontra em um festival literário em Portugal, retorna a Asterias onde é hospitalizado em Oviedo até esta madrugada onde morre. Os internacionalistas te honramos.

Obras

  • Crônica de Pedro Ninguém (1969)
  • Medos, vidas, mortes e outras alucinações
  • Caderno de viagem (1986)
  • Boykott
  • Um velho que lia romances de amor (1988)
  • Desencontro do outro lado do tempo (Prêmio Relato Curto La Felguera, 1990)
  • Patagônia Express (1995)
  • Komplot: Primeira parte de uma antologia irresponsável (Editora Joaquín Mortiz, México D.F., 1995)
  • Nome de toureiro (romance, Tusquets, Barcelona, 1994)
  • Mundo do Fim do Mundo (Tusquets, Barcelona, 1996)
  • História de uma gaivota e do gato que lhe ensinou a voar (Tusquets, Barcelona, 1996)
  • Descontos (Tusquets, Barcelona, 1997)
  • O jogo da intriga, (com Martín Casariego, Javier García Sánchez e Paco Ignacio Taibo II, Espasa, 1997)
  • Diário de um killer sentimental & yacaré (Tusquets, Barcelona, 1998)
  • Histórias marginais (Seix Barral, Barcelona, 2000)
  • Hot Line (Edições B, Barcelona, 2002)
  • A loucura de Pinochet (20 artigos, Ainda Cremos nos Sonhos, Santiago do Chile, 2002)
  • Saúde, professor Gálvez! e outras histórias (Edições da Banda Oriental, Montevidéu, 2004)
  • Os piores contos dos Irmãos Grimm (romance em co-autoria com o escritor uruguaio Mario Delgado Aparaín, Roca Editorial, Barcelona, 2004 e Seix Barral, Buenos Aires, 2004)
  • Narrar é resistir, conversas com Bruno Arpaia
  • Moleskine, anotações e reflexões (artigos, Edições B, Barcelona, 2004)
  • O Poder dos Sonhos (artigos, Ainda Cremos nos Sonhos, Santiago do Chile, 2004)
  • As cuecas de Carolina Huechuraba (17 crônicas, Ainda Cremos nos Sonhos, Santiago do Chile, 2006)
  • Vida, paixão e morte do Gordo e do Flaco (roteiro radiofônico, 2007)
  • A lâmpada de Aladino (Tusquets, Barcelona, 2008)
  • A sombra do que fomos (Espanha, 2009)
  • Histórias daqui e de lá (Belacqva, 2010)
  • Últimas notícias do Sul (livro de viagens; com fotos de Daniel Mordzinski, Espasa, Barcelona, 2011; La Banda Oriental, Montevidéu, 2011; Edições de La Flor, Buenos Aires, 2011)
  • História de Max, de Mix e de Mex (relato com ilustrações de Noemi Villamuza; Espasa, Barcelona, 2012)
  • Histórias Marginais II
  • Uma Idéia da Felicidade (junto a Carlo Petrini, Guanda, Itália 2014)
  • Uma História que devo contar (artigos, Editorial Ainda Cremos nos Sonhos, Chile, 2014)
  • Tutti i racconti. ( Quantos completos compilados por Bruno Arpaia, Guanda, Itália 2014)
  • O uzbeko Mudo
  • História de um cão chamado Leal (Tusquets Editores, 2016)
  • O Fim da História (Tusquets, 2017)
  • História de um caracol que descobriu a importância da lentidão (Tusquets Editores, 2018)
  • História de uma baleia branca (Tusquets Editores, 2019)

Prémios e distinções

  • 1976, Prêmio Gabriela Mistral de Poesia.
  • 1985, Prêmio Cidade Alcalá de Henares por caderno de viagem.
  • 1988, Prêmio Tigre João, por Um velho que lia romances de amor.
  • 1992, Prêmio France Culture Etrangêre, por Um velho que lia romances de amor.
  • 1992, Prêmio Relais H d’Roman de Evasion, por Um velho que lia romances de amor.
  • 1994, Prêmio Internacional Ennio Flaiano.
  • 1996, Prêmio Internacional Grinzane Cavour.
  • 1996, Prémio Internacional Ovídio.
  • 1997, Prémio Terra.
  • 2001, Prémio da Crítica, Chile.
  • 2009, Premio Primavera de Novela
  • 2013, Premio Nordsud Pescarabruzzo.
  • 2013, Premio Pegaso de Oro. Florencia, Itália.
  • 2014, Taormina Prize for Literary Excellence.
  • 2014, Premio Vigevano à Carreira literaria.
  • 2014, Prêmio Chiara à Carrera Literaria. Itália.
  • 2016, Prêmio Eduardo Lourenzo.
  • Caballero de las Artes y las Letras de la República Francesa.
  • Doutor Honoris Causa por la Universidad de Toulon. França.
  • Doutor Honoris Causa por la Universidad de Urbino. Italia.

[1] Moreno, Nahuel (1982). Escola de Cuadros.


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