Por Anabella Dalinger

Há 64 anos ocorria uma revolução na Hungria contra o regime burocrático stalinista, esmagada pelas tropas da ex-URSS. Tudo começou em Budapeste, na noite de 23 de outubro, com um protesto estudantil exigindo da URSS a independência da Hungria, a retirada das tropas do Exército Vermelho e a solidariedade com as manifestações do povo polonês, e se espalhou nacionalmente com rapidez depois que a mobilização foi brutalmente reprimida e muitos de seus ativistas presos.

Nesse mesmo dia, o secretário do Partido Comunista Húngaro, Erno Gerö, solicitou a intervenção militar soviética para “reprimir uma manifestação que atingia uma escala sem precedentes” e por volta das 2 da manhã do dia 24 de outubro, os tanques soviéticos já estavam em Budapeste. O repúdio generalizado à ocupação, a fome crescente e o ódio do povo pelo número de execuções transformaram-se em barricadas. As tropas, tanto em Budapeste como nas províncias, foram divididas. Alguns, prontos para lutar com o povo; outros, neutros, dispostos a entregar suas armas aos trabalhadores para que enfrentassem a polícia secreta.

Imre Nagy, expulso do cargo e do Partido Comunista em 1953 como traidor, voltou ao poder para conter a mobilização após a aposentadoria de János Kádár à frente do gabinete de coalizão, prometendo que o Exército Vermelho, que havia se retirado de Budapeste, embora ainda estivesse no país, deixaria de vez a Hungria.

Em 1º de novembro, Nagy anunciou a retirada do Pacto de Varsóvia, solicitando às Nações Unidas que reconhecesse a Hungria como um país neutro sob a égide das grandes potências. Em 4 de novembro, o Kremlin decidiu que era hora de esmagar o povo húngaro e mobilizou o exército soviético com 31.550 soldados e 1.130 tanques para Budapeste e outras regiões do país.

A resistência heroica do povo húngaro continuou até 10 de novembro, quando finalmente um novo governo “operário-camponês” liderado por Janos Kadar e apoiado pela ocupação soviética afirmou que a “contrarrevolução”, como chamava o processo onde o povo queria conquistar o seu governo, havia sido derrotada e a ordem restaurada.

A decisão dos líderes soviéticos de intervir uma segunda vez trouxe desespero, falência virtual da economia e um ódio ardente contra a Rússia e tudo o que é russo no coração da população. Estima-se que mais de 20 mil húngaros e 3.500 russos morreram; dezenas de milhares de pessoas ficaram feridas e grandes áreas de Budapeste foram devastadas, assim como centenas de milhares de pessoas que fugiram como refugiados após o retorno da ocupação. (1)

Uma etapa revolucionária

Aquele processo de ascenso que percorreu o mundo no pós-guerra com grandes expressões, como a Revolução Chinesa e a luta pela independência da Argélia, Marrocos e Tunísia, se refletiu também na zona soviética. Os trabalhadores na ofensiva provocaram debates na esquerda mundial sobre o caráter dessas revoltas.

Por um lado, aqueles que diziam tratar-se de um pequeno grupo de fascistas, parte da contrarrevolução mundial e, por outro, aqueles que acreditavam que as massas da Europa oriental também estavam na ofensiva e queriam conquistar seu próprio governo. Para expandir sua esfera de influência no mundo, a burocracia stalinista fez um pacto com o imperialismo – que na época estava apavorado com os levantes – e entregou a revolução, tornando-se o principal apoiador do enfraquecido regime capitalista na Europa. (2)

As misérias da ocupação e do regime totalitário

A Hungria, depois da ocupação, foi forçada a pagar mais de 600 milhões de dólares em reparações à União Soviética e a pagar todas as despesas do Exército Vermelho, estacionado e em trânsito pelo país. Só no primeiro ano, 4 milhões de toneladas de grãos foram desapropriados para alimentar as tropas. Como em outros países do Leste Europeu, os russos formaram “empresa conjunta” na Hungria.

Os trabalhadores viviam as misérias de qualquer ocupação: padrões de produção brutais, salários miseráveis, imposição da língua, confisco das safras dos camponeses e uma política autoritária para que eles ingressassem nas coletivizações agrícolas. Essa exploração nação à nação, sofrida pelos povos dominados pela União Soviética, se refletiu em um regime totalitário que nada tinha a ver com o socialismo, sem democracia e com a imposição de uma burocracia criada em Moscou.

A proibição de qualquer tipo de discordância no campo artístico, científico e político por trinta anos, onde tudo foi resolvido por unanimidade absoluta, escondeu uma perseguição política sangrenta e encheu as prisões de militantes genuínos que ousaram questionar. A política anti-leninista da burocracia, que consiste em privilégios para alguns e exploração para os trabalhadores, só poderia se sustentar no terror, porque disponibilizar os recursos do Estado para que o povo pudesse expressar livremente suas opiniões – premissa da democracia bolchevique – ameaçava o poder.

Esse regime totalitário se aprofundou cada vez mais e, embora até aquele momento não tivesse liquidado as grandes conquistas econômicas da Revolução de Outubro, como a nacionalização de terras, indústrias e comércio exterior, ou a planificação da economia, acabou com o conteúdo leninista de tais conquistas: a intervenção livre e democrática dos trabalhadores.

Uma revolução nacional-operária

As greves insurrecionais em Berlim Oriental em 1953 foram um precedente importante e sua derrota pela burocracia soviética significou relativa calma. A nova etapa, que começou com a Revolução Húngara, em conjunto com a Revolução Polonesa, seria uma verdadeira tempestade para o stalinismo. O movimento de massas estava organizado para saltar a uma nova etapa caracterizada por grandes movimentos nacionais contra a opressão, a exploração e o totalitarismo.

Esta grande revolução teve um duplo caráter: por um lado, nacional, onde toda a população lutou contra a opressão intervencionais. E, por outro lado, da classe trabalhadora, quando o movimento avançou na luta contra a exploração russa e a própria burocracia do país, deixando os trabalhadores como única direção.

Desenvolveram-se tendências que esperavam que a revolução contra a burocracia tomasse o caminho pacifista e reformista. Em sentido oposto, nossa corrente anunciava que a pressão do movimento de massas era tão forte que o confronto total era iminente. A casta burocrática não deixaria de ser contrarrevolucionária porque não havia possibilidades de sua transformação.

As concessões da burocracia stalinista e a calma antes da tempestade

A partir do XX Congresso do Partido Comunista da URSS, após a morte de Stalin, a burocracia russa tenta conter por meio de miseráveis ​​concessões a luta dos povos oprimidos pela Rússia, as promessas de maiores liberdades têm apenas o objetivo de uma localização melhor para negociar com o imperialismo.

A burocracia stalinista, com sua característica de subestimar o movimento de massas, não leva em conta que qualquer tentativa de afrouxamento serve para um novo impulso e avanço. Assim, a Revolução Húngara é a explosão generalizada contra a opressão nacional, a exploração social e o totalitarismo político.

O processo revolucionário revelou o terreno comum entre a burocracia russa e o imperialismo, que fizeram um acordo contra o movimento de massas. A Igreja clamava pela “paz social”, embora a assembleia quisesse instalar em todo o mundo quem tinha sido o autor dos motins, deslegitimá-los, já que foi repudiado pela esquerda mundial.

O problema de direção

No desenvolvimento da luta contra a ocupação, exploração e totalitarismo soviéticos, emergiram claras manifestações de duplo poder, característica geral de todo país abalado por um intenso processo revolucionário. A maioria dos membros do comitê eram ex-membros do Partido Social-democrata que, por uma razão ou outra, haviam deixado a atividade política desde que o Partido Comunista e o Partido Social-democrata se fundiram no Partido dos Trabalhadores Húngaros, em junho 1948.

Peter Fryer, correspondente húngaro do diário comunista Daily Worker durante o processo descreve-os como: “organismos da insurreição – reunindo os delegados eleitos em fábricas, universidades, minas e unidades do exército – e organismos de autogoverno popular que gozavam da confiança das pessoas armadas. Como tais, eles tinham uma autoridade tremenda, e não é exagero dizer que, até o ataque soviético em 4 de novembro, o verdadeiro poder do país estava em suas mãos.”

O Exército Soviético esmagou a revolução. A falta de um partido revolucionário foi um elemento fundamental pelo qual o poder dos trabalhadores não pôde ser instalado na Hungria. Os partidos comunistas e suas organizações não podiam ser transformados, mas qualquer mudança tinha que ser feita apesar deles, e qualquer organização incipiente poderia ter militantes que pertenciam às suas fileiras, mas deve ser necessariamente uma nova organização que buscasse outro canal, ou seja, um novo agrupamento.

O trotskismo, devido às suas fragilidades e falta de extensão, por conta da perseguição do stalinismo, participou em condições débeis, enquanto os trabalhadores da Hungria proclamaram em transmissão na Rádio Rajk, em 1º de novembro: “Aqueles que, de alguma forma e, em nome de qualquer partido cooperam com a potência colonial de ocupação, são traidores não só da Hungria, mas do comunismo, e devemos mudá-los. Camaradas, o lugar de todo comunista húngaro honesto é nas barricadas”.

Assim como naquele momento, hoje o movimento de massas e os trabalhadores continuam lutando contra os restos da burocracia stalinista. O caso da rebelião na Bielorrússia, um fenômeno atual, como o episódio revolucionário na Hungria, continua exigindo uma liderança para que, como disse Trotsky, “…a energia das massas não se dissipasse, como o vapor não se dissiparia contido em uma caldeira”.

Notas:
(1) Peter Fryer. La tragedia de Hungría.
(2) Nahuel Moreno. El marco histórico de la revolución húngara.


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