Em memória aos 102 anos do assassinato brutal de Rosa e Liebknecht, companheiros de vida e militância socialista, republicamos um artigo de 2019 sobre a importância desta revolucionária e revolucionário imprescindíveis.

Cem anos do assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. A águia segue seu voo

Por Nadia Burgos

A Rosa vermelha da revolução foi uma militante ousada, perseverante e profundamente crítica, que soube doar sua vida brilhante para impulsionar e promover o desenvolvimento da luta revolucionária. Rosa e seu parceiro Liebknecht nos deixaram ensinamentos importantes.

Desde muito jovem, Rosa Luxemburgo se dedicou ao estudo do marxismo e a servir ativamente em organizações de trabalhadores. Nascida na Polônia em 1871 “com uma constituição pequena, fraca e doentia, Rosa surpreendeu com sua mente poderosa” [1], soube ingressar na militância quando tinha apenas 16 anos e, em 1889, teve que fugir da Polônia para Zurique, onde estudou e deu os primeiros passos no internacionalismo. No Congresso da Internacional Socialista de 1892, com apenas 22 anos, representou o seu partido (Partido Social-Democrata do Reino da Polônia). Viajou para a Alemanha em 1898, onde seus debates teóricos e intervenções em reuniões de trabalhadores a fizeram ocupar um lugar de destaque no Partido Social-Democrata Alemão em pouco tempo.

Lutando para ser ouvida, aprofundou os debates sobre o lugar da mulher nas organizações de trabalhadores, sustentando em suas elaborações políticas e econômicas a necessidade de construção do feminismo socialista. Seu desenvolvimento intelectual ancorado na participação ativa, fez de Rosa uma militante integral reconhecida mundialmente como uma grande dirigente socialista revolucionária, como expressa sua amiga e camarada Clara Zetkin: “Rosa Luxemburgo simboliza a espada e a chama da revolução, e seu nome permanecerá registrado ao longo dos séculos como o de uma das maiores e mais ilustres figuras do socialismo internacional” [2].

Reforma ou revolução?

Sua militância no partido alemão foi marcada por grandes debates estratégicos contra os setores reformistas. “Reforma Social ou Revolução Social” deu nome à brochura que expressava a disputa contra o revisionismo. Bernstein, principal referência da ala reformista, caracterizou que a organização do movimento operário deveria ter um partido de reformas democráticas socialistas, entendendo que o capitalismo caminhava para um período de prosperidade que permitiria aliviar as contradições sociais. Para Bernstein, a tarefa dos partidos operários deveria ser então lutar nos sindicatos e no parlamento para conquistar gradativamente, vez por vez, melhores condições de vida para os trabalhadores.

Assim, Bernstein expressava o abandono da interpretação marxista do desenvolvimento capitalista e, portanto, a renúncia à estratégia de tomada do poder pela via revolucionária. Diante do revisionismo, Rosa desenvolveu uma defesa do marxismo e aprofundou o debate sobre a orientação política das organizações operárias, muitas de suas ideias e teses políticas ainda são plenamente válidas.

Rosa expressou com profunda clareza que, quando Bernstein negava as contradições entre as forças de produção e as relações de produção no desenvolvimento capitalista, estava em última instância desistindo da luta pelo socialismo, falando do socialismo apenas na ideia, abandonando a luta de classes e a compreensão de sua base material e histórica. Denunciou que a posição parlamentar de Bernstein era de desconhecimento do caráter de classe do Estado burguês e, assim, alertou sobre o perigo que o partido corria de se adaptar à política burguesa.

História: Centenário dos assassinatos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht  | Socialismo Revolucionário

Internacionalismo militante

Sua mente tenaz se uniu a uma necessidade imperiosa de participar em cada acontecimento. Em 1905, viajou a Varsóvia para viver e escrever sobre a revolução que lhe permitiu retornar à Alemanha para aprofundar as diferenças com a direção do SPD. Quanto mais se afastava das posições cada vez mais oportunistas da social-democracia, mais respeitada e amada era pelos trabalhadores presentes em todos os comícios que realizava. A social-democracia alemã cresceu em organização e também conquistou mais e mais cadeiras no parlamento. Proporcionalmente, aumentaram as suspeitas de Rosa sobre se a liderança do partido, nos momentos da necessidade de ação, não agiria de forma conservadora e oportunista.

A eclosão das guerras mundiais foi decisiva: sobre o voto a favor dos créditos de guerra, o SPD votou sim sob a asa da posição reformista e pró-imperialista. Este era um limite de princípio, não apenas para Rosa, mas para toda a ala revolucionária, expressa no voto negativo de Karl Liebknecht. Trotsky, ao saber de seus assassinatos, refere-se a esta ação revolucionária heroica: “Sua voz ecoou em todo o mundo. Na França, onde o espírito das massas trabalhadoras ainda era assombrado pela ocupação alemã e o partido dos social-patriotas pregava desde o poder uma luta implacável contra o inimigo que ameaçava Paris, a burguesia e os próprios chauvinistas tiveram que reconhecer que apenas Liebknecht era a exceção aos sentimentos presente no povo alemão.

Na verdade, Liebknecht não estava só: Rosa Luxemburgo, mulher de grande coragem, lutou ao seu lado, apesar do fato de que as leis burguesas do parlamentarismo alemão não permitiam que ela lançasse seu protesto do alto da tribuna, como fez Karl Liebknecht. Deve-se notar que Rosa Luxemburgo foi apoiada pelos setores mais conscientes da classe trabalhadora, que germinaram seus pensamentos e palavras poderosas. Essas duas personalidades, dois militantes, se complementaram e marcharam juntos em busca do mesmo objetivo”.

Como resultado disso, Rosa, Karl, Clara Zetkin e Franz Mehring fundaram em 1918 a Liga Espartaquista. Por suas ações anti-guerra, ela foi presa várias vezes. Na prisão, continuou a apoiar o crescimento da Liga que mais tarde se tornaria o Partido Comunista Alemão e recebeu a notícia da revolução russa. Libertados com o início da revolução alemã e, apesar de terem sido fervorosos defensores da greve geral como instrumento fundamental para o início da revolução, acreditaram que a Alemanha ainda não havia amadurecido as condições subjetivas para uma revolução triunfante e debateu profundamente esta posição com Liebkneht, à medida que se desenvolvia o aumento das lutas que levaram a uma greve geral contra o governo social-democrata, milhares de trabalhadores foram mortos e, em 15 de janeiro de 1919, ficou claro para todos que as ordens do governo social-democrata alemão eram acabar com qualquer signo revolucionário. O reformismo utilizou setores protofascistas aliados (freikorps) que capturaram, torturaram e atiraram em Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, jogando-os nas águas do canal Landwehr, em Berlim.

100 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. | O Trabalho

A revolução se levantará vitoriosa

Cem anos após o assassinato, a atualidade de seus debate nos obriga, revolucionários, a continuarmos pensando e, sobretudo, a militarmos contra qualquer ação do reformismo possibilista, oportunista e sectário que surge como um obstáculo subjetivo ao desenvolvimento da revolução em nível mundial. A organização internacional dos revolucionários torna-se crucial contra o imperialismo em decomposição e ao aprofundamento da crise civilizatória e ambiental. Construir organizações anticapitalistas, anti-imperialistas, ecossocialistas e feministas de combate ao capital torna-se uma tarefa de primeira ordem, junto ao reagrupamento dos revolucionários diante da constante ameaça do capitalismo voraz e do patriarcado. As últimas palavras de Rosa davam conta que, mesmo em um cenário desfavorável, não devemos esquecer que somos movidos por um espírito revolucionário e pela esperança de um mundo sem exploração e sem opressão. Gritamos com Rosa contra a burguesia capitalista e o reformismo: “A revolução se levantará vitoriosa e anunciará com todas as suas trombetas para vossos temores: FUI, SOU E SEREI!”.

Notas:

[1] León Trotsky (1919), “Karl Liebknecht – Rosa Luxemburgo”. Marxists Internet Archive, 2001.
[2] Clara Zetkin (1919), “Rosa Luxemburgo”. Marxists Internet Archive, 2011.