O vigor da greve nacional dos petroleiros revela a elevada disposição de luta da classe trabalhadora. Impulsionada pelas bases, a paralisação por tempo indeterminado encontra-se em movimento ascendente. Em seu 15º dia, a greve conta com a participação de mais de 20 mil trabalhadores, em 116 unidades operacionais, 57 plataformas e 13 estados da federação. Embora o governo tenha ignorado os apelos para negociação, a Agência Nacional de Petróleo já adverte para o risco de desabastecimento de gás de cozinha e combustíveis.

Os petroleiros lutam contra o fechamento da fábrica de fertilizantes nitrogenados do Paraná — a única que produz ureia no Brasil — e a demissão sumária de cerca de mil trabalhadores, em aberto desrespeito ao acordo coletivo de trabalho; contrapõem-se ao expediente espúrio, utilizado pela direção da empresa, de fragmentar a empresa, transformando ativos em subsidiárias, como meio de burlar a legislação que proíbe a privatização da empresa sem a autorização do Congresso Nacional; e batem-se pelo fim da política de paridade dos preços de combustíveis com o mercado internacional, que leva ao custo abusivo do gás de cozinha, gasolina e diesel. Em poucas palavras, os petroleiros batem-se em defesa da Petrobrás como patrimônio público.

A entrada em cena dos petroleiros na luta de classes não é um fato isolado. Os primeiros meses de 2020 anunciam uma forte maré grevista, puxada pelos servidores públicos e trabalhadores das empresas estatais federais. As categorias mobilizadas possuem pautas específicas, mas todas as mobilizações são portadoras de reivindicações que carregam um forte conteúdo democrático e nacional: o combate às arbitrariedades e prepotências do governo Bolsonaro, o repúdio à política econômica que joga o ônus do ajuste fiscal nas costas dos servidores, a defesa intransigente das políticas públicas e a preservação do interesse nacional.

Os trabalhadores da Casa da Moeda, empresa responsável pela impressão de passaportes e da própria moeda nacional, fizeram uma greve de advertência de 24 horas, contra atraso de salários, corte de benefícios e risco de privatização. Os funcionários da DATAPREV, empresa de tecnologia e informação que cuida do processamento e segurança dos dados da previdência social, realizaram uma greve vitoriosa, de quase duas semanas, contra a demissão de 500 servidores, 15% dos trabalhadores da empresa, parte do processo de sucateamento que faz parte da política de desmonte que prepara a privatização da estatal. O sindicato dos trabalhadores do SERPRO, empresa de processamento de dados responsável por informações pessoais dos cidadãos, como CPF e CNH, e informações estratégicas do Estado brasileiro, como CNPJ e Receitanet, decretou “estado de greve” contra a prática sistemática de assédio moral, a redução arbitrária de benefícios, as ameaças de demissão e o plano de privatização. Os carteiros anunciaram que a partir de 18 de março entrarão em greve nacional contra o descumprimento do acordo de trabalho que compromete o plano de saúde dos funcionários dos Correios. O ANDES, Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, decidiu preparar uma greve nacional contra a destruição dos Institutos Federais, CEFET e universidades públicas. Por fim, sindicatos, federações e confederação dos servidores públicos federais convocaram para o dia 18 de março um Dia Nacional de Greve em defesa do serviço público, educação, empresas estatais, emprego e salário.

Enfrentando retaliações da direção da Petrobras, intimidação da Justiça do Trabalho, intrigas da grande mídia escrita e escandaloso silêncio das redes de televisão, os petroleiros protagonizam a maior greve desde 1995. Sua importância é decisiva. Sem uma forte reação dos trabalhadores não há como deter a pauta macabra do ajuste liberal impulsionado pelo governo miliciano de Bolsonaro.

Os trabalhadores que se levantam em defesa dos direitos a uma vida digna e dos interesses estratégicos do Brasil encarnam os interesses do conjunto da classe trabalhadora e merecem todo o apoio e solidariedade. O exemplo que vem do Chile é didático. Somente um levante dos trabalhadores e dos estudantes é capaz de frear os desatinos do neoliberalismo selvagem. A paralisação da produção e circulação de mercadorias é a única linguagem que a burguesia entende.

Para evitar que o ímpeto de luta dos trabalhadores seja manipulado pelas direções burocráticas em troca de pequenas concessões e interesses espúrios, é urgente construir, no calor das lutas, de baixo para cima, direções à altura dos novos desafios históricos. É preciso unificar as greves e construir uma Greve Geral. A tarefa imediata, no entanto, é inequívoca: Apoio integral à greve dos petroleiros! Força total na construção do 18 de março — Dia de Greve Nacional do Funcionalismo e da Educação!

Contrapoder, 17 de fevereiro de 2020


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