Algumas semanas atrás, em mais uma de suas inúmeras declarações descabidas, o ministro da educação Ricardo Velez Rodrigues, disse que “A ideia de universidade para todos não existe”, e que elas seriam apenas para uma “elite intelectual” [1], ou seja, para um grupo seleto que muito provavelmente – embora o ministro não admita – corresponde aos filhos das elites políticas e econômicas a quem historicamente foi reservado o direito ao ensino superior e de qualidade no Brasil. Por trás do que pode parecer apenas um comentário infeliz está o projeto do novo Ministério da Educação e do governo de Jair Bolsonaro de privatizar as universidades públicas e transformar a juventude trabalhadora em mera mão de obra barata para o mercado.

 

Não é à toa que um dos principais pontos do programa de governo de Bolsonaro para a educação diz respeito à instalação do modelo de vouchers no ensino básico, que nada mais é do que uma espécie de bolsa para o ingresso em escolas privadas. Ou seja, o governo enche o bolso das empresas do ramo da educação (Como aliás já faz a partir de programas como o Pouni e Fies no ensino universitário) para que uma minoria tenha acesso a “educação de qualidade’’, enquanto que a grande maioria das crianças e adolescentes permanecem em escolas públicas sucateadas, sem qualquer investimento e com professores cada vez menos valorizados. Nesse sentido, é bom lembrar, a reforma do ensino médio implementada pelo governo Temer que permite, entre outras coisas, que uma certa quantidade de horas/aula seja dada à distância, abre o caminho para a demissão de professores e a redução dos já baixíssimos salários da categoria, além de comprometer ainda mais a qualidade do ensino.

 

A educação pública e gratuita em todos os níveis, assim como a saúde e o transporte, deveria ser um direito de todos, sem a necessidade de qualquer tipo de processo seletivo – que nada mais são do que verdadeiros funis – como vestibulares, Enem/Sisu, etc. Esse tipo de mecanismo para o acesso ao ensino superior serve apenas para evitar que a juventude pobre, negra e trabalhadora tenha acesso à educação superior. Baseia-se no princípio da meritocracia como se, de fato, todos tivessem as mesmas condições de se preparar, e se tratasse realmente de escolher os “melhores”. Isso não passa de uma farsa, e é preciso lutar pelo fim desse tipo de divisão. As cotas raciais para as populações negra e indígena, por exemplo, podem significar um avanço no que se refere à inclusão de setores historicamente excluídos dos espaços de saber, bem como as vagas reservadas para estudantes de escolas públicas através do Sistema de Seleção Unificada, porém além de não incluírem nem todos/as os jovens e as jovens negros e negras e indígenas, e nem todas e todos estudantes de escolas públicas, elas são, em última análise, uma maneira de as elites entregarem os seus anéis para não perderem os dedos. Ainda que estejamos engajados na luta pela implementação das cotas raciais e sociais onde quer que este debate esteja sendo travado, precisamos olhar para além dele, e levantar a bandeira de uma educação superior pública e gratuita para todas e todos que quiserem nela desejarem ingressar, sem deixar ninguém para trás. Essa reivindicação, infelizmente, foi esquecida há muito tempo pelas direções do movimento estudantil, e pela imensa maioria das organizações de juventude, inclusive aquelas que se colocam mais à esquerda, como se fosse uma coisa menor, ou sem importância. É bom lembrar que não se trata de um horizonte distante, ou algo que só pode ser conquistado já com o advento de uma sociedade socialista. Em muitos países hoje, plenamente capitalistas, inclusive da América Latina, essa é a realidade, como por exemplo no caso da Argentina, Venezuela, e mais recentemente o Chile. Com todos os problemas que possam ter, esses são alguns exemplos de países onde a juventude tem acesso livre à educação superior. Essa também precisa ser uma conquista dos/as estudantes brasileiros/as!

 

A chegada ao poder de um governo ultraliberal, comandado por ex-militar proto-fascista, significa que os próximos anos serão de intensa luta em defesa da educação pública, gratuita, de qualidade e com liberdade de debate e crítica. É justamente de parte dos setores que compõem o governo Bolsonaro que surgem em todo pais iniciativas baseadas no projeto “Escola sem partido” que têm como principal objetivo instaurar a censura nas salas de aula e coibir a organização de estudantes e professores em grêmios e sindicatos. Por trás do falso discurso de “neutralidade” o que esse tipo de projeto pretende, é impedir que os nossos jovens interpretem a realidade em que vivem de uma maneira minimamente crítica e se engajem para transformá-la. Ao contrário do que dizem, Bolsonaro e seus aliados querem manter “tudo o que está aí”.

 

Nós somos a juventude que quer e que vai mudar tudo isso, colocando abaixo não só os governos, mas esse sistema que nos divide, explora e oprime. Sonhamos com um mundo em que a educação não seja mera mercadoria, em que ninguém fique de fora e em que todas e todos possam desenvolver ao máximo as suas aspirações, e ter acesso ao conhecimento construído ao longo de milênios pela humanidade. Queremos construir um futuro diferente de tudo o que já foi experimentado, e que não tem absolutamente nada a ver com tentar arrancar migalhas do andar de cima, e sim tomar para nós tudo aquilo a que temos de direito. Sabemos que para que isso tudo seja realidade precisamos destruir o sistema econômico e social, que impede esses avanços: o capitalismo. Somente com a construção de uma sociedade socialista, onde a economia seja democraticamente planificada e posta a serviço das necessidades coletivas, é que poderemos desenvolver algo nesse sentido. Porém a luta por esse novo mundo começa hoje, já, e toda conquista que ajude na organização e na conscientização da classe trabalhadora e da sua juventude é válida. Essa é a luta que estamos dispostos a travar sem tréguas. Junte-se a nós!

 

Juventude Alternativa Socialista


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