Para onde vai a UNE?

 

Em uma publicação feita na sua página no Facebook, nesta segunda-feira (24/12), a União Nacional dos Estudantes (UNE), saúda o encontro de dirigentes da entidade, entre os quais a sua presidente, Marianna Dias, com o prefeito e outros políticos de Salvador, cidade que deverá sediar a próxima Bienal da UNE, tradicional evento de manifestação cultural promovido pela entidade. A grande questão é que, para os que não o conhecem, o prefeito de Salvador é ninguém mais, ninguém menos que ACM Neto, que além de ser herdeiro de um dos clãs mais conservadores da política nacional, é filiado ao DEM, velho partido da direita, e que assim como o próprio prefeito, apoia o proto-fascista Jair Bolsonaro, contando, inclusive, com importantes ministérios no futuro governo.

 

Alguns podem dizer que se trata apenas de um caso isolado, ou de menor importância, mas a verdade é que esta é apenas mais uma expressão do lamentável caminho que a UNE tem tomado sob uma direção burocratizada, controlada há mais de vinte anos pela UJS (juventude do PC do B) e contando com o apoio de praticamente toda a juventude do PT, do Levante Popular da Juventude, além de outros partidos da ordem como PDT, PSB, etc. Em todo o período em que o PC do B esteve no governo federal ao lado do PT e de diversos partidos burgueses, a entidade serviu como mera correia de transmissão dos governos de conciliação de classes, tudo isso, apesar dos vários ataques à educação promovidos por esses governos, como os cortes no orçamento, e defendendo políticas que encheram os bolsos dos grupos de educação privada e das empreiteiras como o Prouni, o FIES e o REUNI, como se fossem grandes avanços. E, mesmo após a queda de Dilma, a direção da União Nacional dos Estudantes fez o possível para frear a luta das e dos estudantes contra o governo Temer, sempre se pautando pelo calendário eleitoral, assim como fez a CUT e a CTB, centrais sindicais comandadas por essas mesmas forças políticas. Felizmente o movimento estudantil tem sabido passar por cima da burocracia da sua maior entidade, e se mobilizar a partir das bases, como foi o caso da onda de ocupação nas universidades em 2016, contra a PEC do teto dos gastos. Ao invés de apostar na mobilização junto aos estudantes, a burocracia do movimento prefere acordos de portas fechadas com expoentes da velha política, e uma vez ou outra, comparecer em um ato de rua para manter a fachada combativa.

 

O próximo ano vai começar impondo grandes desafios ao conjunto dos movimentos populares e da esquerda, e assim como a classe trabalhadora, as e os estudantes brasileiros devem estar à frente de todas as lutas contra o governo ultradireitista de Bolsonaro e seus aliados com o seu programa de ajuste. Os seus planos para a educação são nefastos com sérios riscos de avanço na privatização da educação superior, retrocessos nas políticas de assistência estudantil e de ingresso, perda de autonomia nas universidades e ataques à liberdade de cátedra, entre muitos outros. A resistência e o combate a tudo isso, porém, não se farão ao lado de figuras como ACM Neto e nem dialogando “de maneira republicana” com partidos como o DEM, e sim nas ruas, nas universidades, escolas e nas fábricas, através de assembleias massivas que pressionem as direções pelegas para que deixem de lado o imobilismo e os acordões, e coloquem as entidades a serviço de que quem de fato elas deveriam estar. Além disso, em 2019 deverá ocorrer o 56º Congresso da UNE, e mais do que nunca, é urgente que as forças da Oposição de Esquerda estejam unidas em torno de um programa unitário e alternativo ao da direção, que seja capaz de dialogar com o máximo possível de estudantes, sobretudo independentes, para resgatar a entidade das mãos das organizações pelegas e colocá-la de novo nas mãos das e dos estudantes e a serviço das lutas que virão.

 

Luiz Domingues
Alternativa Socialista – RS


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