Em várias notas e em nosso livro “Mulheres em Revolução” temos definido quais são, em nosso critério, as particularidades desta nova onda feminista mundial e que representam um salto qualitativo em respeito as anteriores: a grandeza e combatividade, o internacionalismo ativo e as tendências antissistema das reivindicações.  Por desgraça, de maneira consciente ou não, muitos destes traços positivos são sabotados por algumas “feministas radicais” que trazem de volta velhos posicionamentos biológicos e separatistas. Compartilhamos nossos argumentos a fim de esclarecer confusões.

Mais conhecidas por algumas frases expulsivas até para as mulheres trans, travestis, não binárias e homens antipatriarcais, as radfem não são nada novo nem original. Nos anos ’70 surgiram alguns grupo – sobre tudo acadêmicos – autodenominados de feminismo radical, com discursos anti-homens e reformistas do capitalismo. As atuais reciclam o que foi há meio século atrás.

Ainda que se digam anticapitalistas, não veem que o capitalismo e o patriarcado são um só sistema e se reforçam entre si. Tampouco veem a dialética que deve existir na luta contra ambos. Ao levantar que é possível tirar ao patriarcado apenas através do empoderamento das mulheres, como se fosse um processo linear e separado da luta contra as instituições que sustenta a opressão machista [1], e como se além dessa luta fosse só de mulheres (não da classe trabalhadora, os povos oprimidos, a juventude, a dissidência sexual, etc.) terminam sendo reformistas. Em consequência, rejeitam se organizar em partidos revolucionários antissistema e, pior ainda, atacam mais a esquerda que aos partidos burgueses. Casualidade?

Sua estratégia é abolir os gêneros, porque nele localizam a origem da desigualdade. Por isso falam da nova mulher como classe sexual alheio às suas outras condições (classe social, etnia, identidade de gênero) e reencontrada com sua marca biológica que a diferencia do opressor, que para elas é o homem e não o patriarcado. Gostem ou não, isso as relaciona perigosamente com dois setores anti-direitos:

A classe exploradora, que busca homogeneizar as mulheres exploradas com as burguesas que se beneficiam economicamente da desigualdade de gênero. Atar os interesses das trabalhadoras e mulheres como Vidal (governadora de Buenos Aires), Michetti (vice-presidenta da Argentina), Carrió (deputada), CFK e Alicia K (ex-presidenta argentina e governador de Santa Cruz), Patricia Bullrich (ministra da segurança) Awada (primeira-dama argentina) e outras burguesas é, sob uma sororidade ilusória, deixar que as capitalistas tentem tomar as rédeas do movimento feminista para enterrá-lo.

Os religiosos reacionários, que afirmam que não existem gêneros mas uma ideologia de gênero, que nascemos homens ou mulheres e que a genitália é destino. As radfem negam a identidade trans e não binárixs, rejeitam a linguagem inclusiva e defendes que as lésbicas se separem do coletivo LGBTI [2]. Ou seja, dividem.


Radicais não, reacionárias bastante
Essas concepções teorias erradas tem derivações políticas perigosas que hoje, intenções a parte, de fato implicam uma reação conservadora dentro da onda feminista contra seus traços mais progressistas:

Contra a grandeza e empatia que gera a onda impulsam o divisionismo ao excluir mulheres trans, travestis e identidades não binárias. Alentam uma sorte de “purificação” destro do feminismo, no lugar de impulsar a unidade de ação ampla contra os responsáveis da violência machista.

Contra as tendências antissistema que vão avançando no movimento feminista e que questionam ao Estado capitalista como principal responsável, desviam essa força contra a figura do homem como encarnação do patriarcado, já não contra a ordem patriarcal e suas instituições, que frequentemente são reproduzidas também por mulheres.

Contra a combatividade que se expressou desde a primeira greve internacional de mulheres, onde o 8M voltou a ser internacionalista e a utilizar métodos de luta da classe trabalhadora, as radfem pretendem diluir as reivindicações sociais para preservar uma suposta unidade de classe sexual das mulheres (unidade que inclui as burguesas). Assim postergam as reivindicações das trabalhadoras e neutralizam os planos anticapitalistas da onda.

Estes debates podem parecer triviais pelo pouco peso real, não nas redes, das radfem. Mas pela via da segregação, seus planos implicam dividir e debilitar a luta feminista. E quem divide, resulta funcional ao inimigo.

Prostituição, outro terreno em que dividem
Com Alika Kinan na cabeça, as radfem são abolicionistas dogmáticas que consideram que as mulheres que exercem a prostituição de forma autônoma são iguais aos proxenetas e fazem apologia ao tráfico. Colocam equivocadamente ênfase no cliente e não na conivência do Estado com as redes de tráfico e proxenetismo, principal garantia de impunidade.

Em troca, nós entendemos que a prostituição e tráfico são questões vinculadas, mas distintas. A prostituição é uma instituição patriarcal que surgiu junto com o casamento monogâmico (que privatizou a sexualidade da mulher com fins reprodutivos), dando aos homens um mercado para sustentar seus privilégios sexuais a custa da opressão das mulheres. Por isso não consideramos a prostituição como um trabalho, mas sim defendemos os direitos sociais e previdenciários de quem se considere trabalhadorxs sexuais. Entre outras medidas, rejeitamos toda perseguição a quem exerce a prostituição por sua conta e exigimos ao Estado saídas trabalhistas para quem busque deixar essa atividade.

Por um 8M das mulheres trabalhadoras, das dissidências e anticapitalista
Quando as radfem aplicam sua política, salta a realidade: são anti-partido, anti-homens e anti-esquerda: “As aliadas das mulheres são as outras mulheres; nem os Estados; nem os partidos; nem os homens, seja como se entendam, por desconstruídos que se criam ou por de esquerda que sejam”. Dizem também: “rejeitamos toda tentativa de romper o movimento feminista na base de critérios de classe” [3]. Mas uma greve como a do 8M é de por si só uma medida de classe: não deixa espaço para conciliar entre classes sociais antagônicas, já que priorizar a unidade com as mulheres burguesas seria não chamar a parar porque se as trabalhadoras detém sua produção, perdem as burguesas. Pelo contrário, se a greve é total, de mulheres, dissidências e homens, perdem as mulheres, como defendem as radfem ou perdem as patronais, o Estado capitalista e a burocracia sindical, que nos negam nossos direitos? Queiram elas assim ou não, sua proposta divisionista de “greve apenas de mulheres” encontra aliados na burocracia e nas organizações do JP-K (partido argentino), que se negam a chamar a greve geral.

Na greve e nas marchas que nós propomos, os homens acompanham, atrás das companheiras, mas juntos na luta. Acaso conquistar o Estado laico é uma luta só de nós mulheres? Ou derrotar o ajuste do FMI ou conquistar a ESI [4]… Nem seques as lutas pelo aborto legal e contra a violência machista são só das mulheres! Muito menos é só de mulheres a principal tarefa que temos por diante as feministas anticapitalistas: derrotar o sistema capitalista patriarcal, como as radfem dizem querer fazer.

Então? Ao divisionismo nenhum espaço: feminismo e mais revolução, companheiras! Venha para Juntas e na Esquerda e para o MST [5].

Majo González

1. Estado, Forças Armadas, Igreja, Congresso e partidos do sistema, educação e famílias tradicionais, divisão do trabalho, etc.
2. Nota Orgulho Lésbico, no blog radarfeministas, 17/11/18.
3. Ana Marcocavallo, texto no site FRIA (Feministas Radicais Independentes da Argentina), 01/02/2019.
4. Educação Sexual Integrada.
5. Movimento Socialista dos Trabalhadores, partido argentino.