Por Alessandro Fernandes

A desoladora morte de Amoim Aruká, do povo Juma, foi notícia em vários meios de comunicação. Aruká faleceu no último dia 17 em Porto Velho, Rondônia, vítima da Covid-19. Estava internado desde o início de fevereiro. Deixa três filhas e uma neta.

Toda perda é significativa, são mais de 240 mil mortes pela Covid-19, mas a perda de Aruká, último homem de seu povo, significa uma lacuna sobre um ramo importante de nossas raízes, uma parte da história de quem somos. Um ancião indígena é também uma grande “biblioteca” que costuma compartilhar os conhecimentos pela oralidade. Aruká foi um grande guerreiro em todos os sentidos que se possa encontrar. Em vida, lutou o quanto pôde pela demarcação do território ancestral e sagrado de seu povo. Essa luta significa a sobrevivência de sua história tão massacrada.

O povo Juma pertence em sua origem ao conjunto de povos Kagwahiva e em sua língua a família linguística do Tupi-Guarani. Estima-se que no século 18 a totalidade do povo chegou entre 12 e 15 mil [1]. Após um intenso genocídio histórico, ao povo Juma e a vários outros, em 2002 restavam apenas 5 pessoas. Quando jovem, Amoim Aruká presenciou o horror do massacre ao seu povo em 1964 no rio Assuã com 60 parentes assassinados, restando apenas 7 sobreviventes, “Integrantes do grupo de extermínio contratados pelos comerciantes relataram atirar nos Juma como se atirassem em macacos. Os corpos indígenas foram vistos por ribeirinhos da região, após o massacre, servindo de comida para porcos do mato, inúmeras cabeças decapitadas espalhadas pelo chão da floresta” [2].

Essa história e a de Aruká devem ser sempre lembradas como o ódio que o Estado brasileiro tem aos povos nativos-originários. O massacre, pelo extermínio físico direto, uma política que até hoje segue presente, e a morte de Aruká, pela política de genocídio “silencioso” do governo Bolsonaro ao povo brasileiro e aos povos indígenas para “limpeza” deliberada.

Morre de covid-19 o guerreiro Aruká, o último homem | Direitos Humanos

Juma é um exemplo do quanto os povos originários seguem como um dos primeiros na lista de ameaçados. Em alguns governos a face política é mais “amena” e em outras, como a atual, é escancarada. Do início da pandemia até agora, com subnotificação, são 13.801 indígenas contaminados e 493 vidas perdidas de indígenas que estão cadastrados na base de dados do governo – os números contabilizados são apenas de uma pequena parcela de indígenas com RANI, identidade da FUNAI. Além da Covid-19, também avança o agronegócio, o garimpo, madeireiras, grilagem, o saque deliberado de terras e outras atividades ilegais que contaminam vários povos indígenas com o coronavírus e extermina fisicamente. Tudo em busca do lucro irracional.

Nossa defesa aos povos originários deve ser: 1) Vacinação imediata a todos os povos aldeados e em contexto urbano; 2) Repúdio a política da FUNAI de restrição à autodeclaração indígena, determinando quem pode ou não se declarar nativo-originário; 3) Autodemarcação e autodefesa dos povos e movimentos indígenas para enfrentar os planos de Bolsonaro; 4) Reparo socioambiental a todas as áreas e comunidades afetadas, financiado pelas empresas penalizadas por destruições; 5) Participação dos povos indígenas nas decisões sobre o uso da terra e políticas de conservação socioambiental dos territórios; 6) Reforma agrária para trabalhadoras e trabalhadores rurais que habitam e produzem.

Notas:

[1] Povos Indígenas do Brasil: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Juma
[2] Associação dos Povos Indígenas do Brasil: https://apiboficial.org/2021/02/17/a-devastadora-e-irreparavel-morte-de-aruka-juma/

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