A Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (FEPOINCE), organização que congrega os 15 povos indígenas no estado do Ceará e suas organizações estaduais e de base locais, vem por meio desta, manifestar o nosso mais veemente REPÚDIO à pesquisa intitulada “GPS-DNA Origins Ceará” patrocinada por um herdeiro do Grupo Edson Queiroz, bem como à divulgação irresponsável que vem sendo feita na mídia dos supostos resultados dessa pesquisa.


Em primeiro lugar, deixa-nos indignados o fato de uma pesquisa que afirma ter recolhido material genético com membros dos povos indígenas e quilombolas do Ceará não tenha procurado nossas organizações para pedir autorização para tal coleta, assim como os órgãos públicos necessários. Segundo a afirmativa de reportagem na internet, a pesquisa foi registrada apenas na Anvisa sem que outros órgãos de regulação científica, como o CNPq ou de proteção aos direitos indígenas como a Funai e o MPF tenham sequer sido informados. Isso constitui prática completamente antiética e de biopirataria. Mais uma violação colonial de nossos direitos e de nossos corpos. Agora até partes das nossas células estão à disposição de interesses escusos. Os ditos coordenadores e organizadores dessa pesquisa podem e devem ser acionados em tribunais penais nacionais e internacionais para que sejam responsabilizados por essas práticas criminosas.

Em segundo lugar, é patente o viés racista e colonialista de tal pesquisa. O que querem mostrar tais senhores com esse tipo de pesquisa? Que seus antepassados foram campeões em estupros sucessivos? Que gerações de mulheres indígenas e negras foram objeto de toda sorte de exploração e violência para garantir a mestiçagem dominada pelos brancos? Querem mostrar que são tão vitoriosos que até dentro de nossos corpos carregamos a marca de “ferro em brasa” da colonização? Querem que sejamos para sempre Moacir, “o filho da dor de Iracema”, como inventou o escritor José de Alencar em 1865 para dizer que os povos indígenas deveriam morrer para que o Ceará nascesse?

Esta é mais uma tentativa espúria de usar instrumentos da ciência ocidental para desacreditar e silenciar os povos indígenas e afro-brasileiros. Cem anos atrás mediam nossas cabeças e narizes, diziam que a “cabeça chata” (braquicefalia) era sinal de inferioridade e pouca inteligência. Raptavam nossos parentes para expor em circos e zoológicos humanos na Europa e nos Estados Unidos e lucrar com a venda de ingressos. Escreviam documentos oficiais que diziam que não existiam mais indígenas no Ceará porque estávamos misturados. Lembrem-se que antes da Europa foram criados campos de concentração no Ceará para isolar os “flagelados” da seca, nossos antepassados estiveram nesses campos, sofrendo de fome, doenças e maus tratos de todo tipo. Sobrevivemos!

Hoje já não basta mais as lendas inventadas por romancistas e nem os zoológicos humanos para nos silenciar. Agora, levantamos nossas cabeças orgulhosos de nossas histórias, tradições e culturas. O Ceará é uma invenção afro-indígena, muito mais do que europeia. Foi no ventre das nossas avós que o povo cearense foi gerado. Foi a força física das nossas avós e avôs que produziu a farinha que todos comiam, a cera, o algodão, os couros e o açúcar que fizeram a riqueza de muitos senhores brancos.

O DNA não quer dizer nada! Nada! Nossa história está gravada em nossos corpos, na nossa memória e no nosso território. E ela é de resistência. Não de passividade. Nossos rituais nos trazem de volta nossos ancestrais e eles nos orientam. Aprendemos não com números frios e estatísticas, mas com a força da natureza e o sentimento dos nossos irmãos. Nossa história é viva e pulsa quando batemos o pé no chão, vibramos nossos maracás e levantamos nossas vozes aos céus. Todos os nossos guerreiros nos acompanham quando nos movemos. Não será um livro fraudulento e sua divulgação falaciosa que irão nos apagar do passado, presente e futuro do Ceará e do Brasil.

A mídia que divulga essas ideologias desesperadas também deve ser responsabilizada pela forma leviana com que trata um tema tão sério. Nossa história não começa em 1500 e nem termina nos livros dos brancos. Nossa história é a história da terra. Dos mares, serras, sertões e cidades desse estado. Pois fomos nós, indígenas e negros, que levantamos cada engenho, curral, prédio e palacete do Ceará. Hoje, depois de muita luta temos espaço e visibilidade, e não nos calaremos diante de monstruosas fakenews como essa de que os cearenses descendem mais dos nórdicos do que de indígenas ou africanos.

E por falar em nórdicos, os vikings foram os primeiros europeus a pisar nas Américas, lá no Canadá. Mas tomaram uma peia tão grande dos nossos parentes das terras geladas que fugiram correndo e não voltaram mais. Dizem que ainda sobrou um chifre ou outro perdido pra provar a pisa que tomaram.

Por fim, não serão essas pesquisas fajutas que irão silenciar a nossa história de resistência e luta.

Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (FEPOINCE)

30 de julho de 2020


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