Por Neide Solimões – Coordenadora Geral do Sintsep-pa e da Direção de Luta Socialista/PSOL.

Há quem pense que o genocídio indígena no Brasil só aconteceu na época da invasão europeia, em 1500. De fato, foi nessa época que aconteceu a maior matança e escravização de indígenas, além da invasão de suas terras, empurrando os sobreviventes do litoral brasileiro para o meio das florestas existentes. Muitos povos indígenas foram extintos nessa época. Nesses 521 anos subsequentes, não houve trégua. Todos os governos, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, contribuíram para a diminuição e mesmo extinção de muitos povos indígenas no decorrer desse tempo.

A invasão das terras indígenas por grileiros, fazendeiros, latifundiários, sojeiros e madeireiros, sem que o governo brasileiro, o ministério do Meio Ambiente e a Funai os impedissem, diminuiu o espaço geográfico para sua agricultura de subsistência, coleta de materiais para seus artesanatos e vestimentas rituais e mesmo para sua deambulação natural ou para localizar suas aldeias e casas para novos casais e suas famílias. A abertura de estradas, nos governos militares e da Nova República, atravessando suas terras, como a Transamazônica entre tantas outras, possibilitou a entrada de invasores com os mais diversos objetivos. A construção de hidrelétricas, como a Belo Monte, já nos governos do PT, que desviou o rio Xingu, secou parte dos igarapés que banhavam suas terras ou alagou parte de seus territórios, expulsando-os para Altamira ou outras cidades vizinhas, onde, sem empregos e sem a proteção da Funai, e ainda, sujeitos ao preconceito, à discriminação, às doenças “dos brancos”, sobrevivem da caridade alheia.

Como se tudo isso não bastasse, sob o governo genocida de Bolsonaro, que já em sua campanha eleitoral deixou bem claro sua rejeição aos povos indígenas, quando disse em alto e bom som que, em seu governo, não demarcaria um centímetro de terras indígenas, o ataque a esses povos ficou mais patente. Em primeiro lugar, a Funai foi entregue a bolsonaristas inimigos dos povos originários, pois têm ódio de sua cultura, de seus rituais, de suas crenças. Querem a todo custo “civilizá-los”, a partir das normas, moral, crenças e regras da civilização ocidental. Mas, isso não é tudo. O governo Bolsonaro, através de seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem feito gestões para legalizar a derrubada de centenas de árvores em terras indígenas, por seus amigos madeireiros, inimigos mortais dos povos originários. Ele teve a pachorra de vir de Brasília ao Pará, só para desautorizar a apreensão pela PF do Amazonas e Pará, de toneladas de madeira retiradas de áreas indígenas.

Ultimamente, temos assistido estarrecidos, o avanço de garimpos ilegais nas áreas Munduruku, no Pará e Yanomami, em Roraima. A garimpagem em áreas indígenas é defendida publicamente por Bolsonaro: “É intenção minha regulamentar o garimpo, inclusive para índio. Eles têm que ter o direito de explorar o garimpo na sua própria propriedade, a terra indígena é como se fosse propriedade deles”, declarou. Uma minoria de indígenas é aliciada pelos garimpeiros, que andam armados até os dentes e utilizam equipamentos pesados, para que autorizem sua entrada nessas terras, acesso proibido por lei. As lideranças, em maioria, afirmam que não querem a presença de garimpeiros em suas terras, pois a garimpagem só produz destruição e morte. Os equipamentos para dragagem dos rios onde tentam encontrar ouro, além de deixar grandes buracos nas margens, reviram e transformam os rios em lamaçais. O mercúrio, utilizado para amalgamar o ouro separando-o de detritos, contamina a água dos rios e os peixes, que serão consumidos pelos indígenas, levando-os ao adoecimento com problemas dermatológicos e intoxicação, o que os deixam incapacitados para suas atividades laborais e pode, em alguns casos, culminar em óbito. Há notícias de que algumas crianças já nascem contaminadas pelo mercúrio, nas áreas onde a garimpagem é intensa.

No entanto, nas últimas semanas, foi noticiado o recrudescimento da atividade ilegal de garimpeiros nas áreas Munduruku e Yanomami, com uso de muita violência contra os indígenas que são contrários à garimpagem. A casa onde funcionava a Associação de Mulheres Indígenas Mundurukus, em Jacareacanga no Pará, que fazem campanha contra o garimpo ilegal em suas terras, foi invadida, saqueada e incendiada. Mulheres Mundurukus que estavam com crianças em uma embarcação, foram retiradas à força e ameaçadas pelo garimpeiros com ajuda dos indígenas aliciados. Na área Yanomami, garimpeiros ilegais passavam de voadeiras em alta velocidade, em frente às aldeias indígenas atirando a esmo, contra mulheres e crianças. Os guerreiros Yanomamis procuraram se armar com seus arcos e flechas, na perspectiva de defender o seu povo. Sabemos que, se houver um confronto, será uma carnificina, pois os garimpeiros andam bem armados, com muita munição, como mostrou a reportagem do Fantástico, na Rede Globo, no último domingo.

O governo genocida de Bolsonaro, seu ministro do Meio Ambiente, os presidentes do Ibama, ICMBio e Funai, nada farão para conter os garimpeiros ilegais, pois apoiam e protegem esses meliantes. Em pleno século XXI, vamos ver a repetição dos acontecimentos do século XVI ? Não iremos permitir que isso aconteça! Inclusive o governo brasileiro já foi denunciado em Tribunal Internacional pelo crime de genocídio dos povos indígenas. Devemos apoiar toda a agenda de lutas dos povos originários e sua pauta de reivindicações.

Demarcação das terras indígenas, já!

Fora garimpos das terras indígenas! Não ao PL 191!

Fim do desmatamento da Amazônia!

Contra o genocídio dos povos indígenas!

Fora Bolsonaro, Mourão e todos seus comparsas!