Por: Ítalo Freitas e Alessandro Fernandes*

Desde o ano passado, já nas jornadas de luta contra a Reforma da Previdência de Bolsonaro, a esquerda da ordem vem plantando no terreno dos movimentos a semente de que “a derrota da extrema-direita e de suas políticas destrutivas, depende da construção de uma frente ampla eleitoral policlassista”.

É importante diferenciarmos o entendimento geral de uma frente, com espaços relativamente permanentes e um programa, daquilo que chamamos de unidade pra ação: acordos práticos, com um objetivo em comum, mas que mantém a total independência das organizações (um caminho imprescindível para barrar as ofensivas antipopulares). Para confundir as pessoas que não suportam mais esse governo genocida, algumas lideranças vendem essas duas táticas como se fossem exatamente a mesma coisa.

Por exemplo: para defender a democracia de um golpe, não só é possível como seria necessário fazer unidade de ação com figuras do naipe de Fernando Henrique Cardoso, Ciro Gomes, Marina Silva, Renan Calheiros, dentre outros. Mas, é possível construir um projeto de governo, uma frente eleitoral, que defenda nas eleições os interesses dos trabalhadores, com algum desses nomes? A maioria da esquerda da ordem acredita. Nós, não.

A luta contra a extrema-direita organizada, contra o governo Bolsonaro e suas bases, que ainda ameaçam verbal e fisicamente companheiros nossos, é urgente. Nessa luta não pode existir o sectarismo de polarizar as eleições com as mobilizações. As eleições deste ano também serão importantes para minar o governo Bolsonaro, já em crise crônica.

O caminho mais fácil parece ser a conformação de um amplo arco de aliança eleitoral com quem estiver disposto a derrotar a extrema-direita. Pode até ser o caminho da vitória eleitoral garantida. Mas seria um casamento que sequer chegaria à noite de núpcias. Não é possível construir uma alternativa com aqueles que atacam ou já atacaram nossa classe.

Sob o pretexto de derrotar a extrema-direita nas eleições municipais, a esquerda da ordem quer reeditar, de norte a sul do país, alianças eleitorais cujo desfecho trágico nós já conhecemos: absorção das lideranças populares pelos interesses das elites, incluindo os esquemas de corrupção, seguida pelo despejo, quando estas lideranças perderem a serventia.

É possível construir uma alternativa de governo que atenda às necessidades mais básicas da imensa maioria e que até hoje, no Brasil, não conseguiu ser atendida: moradia digna; saneamento básico; trabalho com garantias; educação e saúde pública, universal e de qualidade; distribuição efetiva de renda; combate as diversas formas de opressões (machismo, racismo e lgbtfobia); um governo dos que querem trabalhar, estudar, viver e construir um espaço para o povo.

Para construir essa alternativa de governo é preciso acreditar que a imensa maioria, explorada e oprimida, seja o verdadeiro sujeito das transformações, não as figuras já desgastadas. Dessa forma, construir um projeto de governo com quem defende e aplica medidas antipopulares (reforma trabalhista, da previdência, privatização do saneamento básico, etc) parece ser o caminho mais fácil, mas é o caminho que vai nos atrasar e jogar a imensa maioria do povo em uma confusão que só compromete o avanço da consciência da classe trabalhadora.

As possibilidades estão dadas, a trilha exige paciência e trabalho. É construir, além da unidade de ação, uma frente com movimentos sociais, com coletivos, associações populares, partidos da esquerda socialista, outras frentes e organizações de luta. É essa frente que, nas mobilizações e participando do processo eleitoral, derrotará a extrema-direita. Uma frente que deve ser decidida no que quer, com um programa claro de independência de classe, que seja da imensa maioria do povo.

Precisamos avançar na construção de uma verdadeira alternativa socialista, que seja capaz de conquistar a confiança e mobilizar os trabalhadores. O caminho aparentemente mais fácil, o da aliança com velhos partidos da ordem, dos acordos de cúpula com figuras carcomidas e atreladas ao que há de pior no conservadorismo, o caminho da ampliação de votos a qualquer custo, é na verdade o caminho da derrota.

* Ítalo é dirigente do Sindicato dos Servidores Municipais de Juazeiro do Norte – SISEMJUN e da Direção Estadual da CSP-Conlutas, Ceará.

* Alessandro constrói a Alternativa Socialista, o PSOL, e trabalha na assessoria do Sindicato das e dos Docentes da Universidade Regional do Cariri – SINDURCA.


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