Editorial | Alternativa Socialista – PSOL

Há, pelo menos, dois fatores gerais que podem definir as eleições municipais deste ano como atípica. O Brasil e o mundo foi assolado por um cenário pandêmico não visto há um século, com milhares de pessoas mortas e milhões de contaminados no país. Outro fator importante, como extensão de 2018, é a apresentação pública de candidaturas da extrema-direita nas eleições. Tudo isso, e muito mais, no momento de uma crise sem horizonte de solução.

O país está afundado em mais de 14 milhões de desempregados, 4,1 milhões só entre maio e setembro, e 4,8 milhões de desalentados. Um PIB que até então cambaleava, deverá cair em –5% segundo o Banco Central. Por onde se ver, o panorama é arrasador. A inflação corrói diariamente o salário, com os itens básicos cada vez mais de “luxo”, o Real é esmagado pelo Dólar/Euro.

Os 60 milhões de desempregados, os economistas e o triste cenário –  https://bemblogado.com.br/site/

Qual futuro?

É uma pergunta ainda sem certezas. A esquerda radical apresenta um projeto alternativo de saída da crise e derrota da extrema-direita, mas de forma ainda embrionária. Ao mesmo tempo, disputam o bolsonarismo, a direita tradicional, centro-direita/esquerda e a esquerda da ordem. Cada uma oferecendo soluções que vão desde a barbárie completa até a manutenção das relações apodrecidas entre as instituições burguesas.

O governo segue atacando onde pode para garantir o lucro da ínfima parcela dos super-ricos: bioma devastado, reforma administrativa em andamento, dinheiro usurpado da educação, fim do auxílio emergencial, etc. Para bem da verdade, as investidas nem sempre alcançam vitórias, a tentativa recente de abrir caminho para privatização das UBSs mostrou-se um fiasco pelo rechaço popular. Mesmo assim, Bolsonaro é segurado pelo “acordão burguês” evitando assim uma intempérie no período eleitoral, mas com uma desidratação da base que saía às ruas em sua defesa e uma avaliação de Ruim/Péssimo que oscila nas capitais entre 17% em Boa Vista até 65% em Salvador [1].

Toda esta conjuntura de crise poderia ser aproveitada pelos socialistas para a disputa de uma saída alternativa. Mas não é isso que ocorre. Por um lado, um setor se isola na autoproclamação, por outro, o PSOL, partido que construímos, alimenta ilusões no PT/PCdoB, apeados na maioria das capitais, fazendo alianças com partidos bolsonaristas em vários municípios e atacando a classe trabalhadora nos Estados em que governam.

Ao mesmo tempo, se especulou que o bolsonarismo colheria os melhores frutos das eleições – o que não está ocorrendo. Estão bem localizados em poucas capitais. Em São Paulo, por exemplo, é ameaçado por Boulos. Além disso, a regra que segue é de um racha em mais de uma candidatura bolsonarista, em alguns locais, mais de duas ou três. Grande parte, em médias e pequenas cidades, sequer vincula diretamente o apoio a Bolsonaro por receio de perderem votos.

Os filhos legítimos do bolsonarismo não estão ocupando os espaços desejados, mas estes espaços são ocupados pela direita tradicional ou a centro-direita/esquerda que negocia diretamente com o governo e ajudarão – ou fecharão os olhos – na aplicação das medidas impopulares. De todo este cenário, fica claro que só a esquerda radical, socialista, é capaz de lutar de forma consequente contra esse governo miserável.

Vamos de PSOL 50

A tendência do PSOL nestas eleições é de ampliação parlamentar e em algumas cidades no executivo. Em São Paulo, Boulos faz uma campanha de chão, olho no olho e a cada pesquisa cresce nas intenções de voto. O grande desafio é garantir a vaga no segundo turno contra Bruno Covas, candidato do governador, o ex-BolsoDoria. Mas há algumas pedras no caminho, o asqueroso Russomano, candidato de Bolsonaro, e Márcio França, um tucano fora do ninho. De qualquer forma, Boulos já mostra ser um fenômeno eleitoral de peso, acumulando uma importante vitória política.

Em Belém, Edmilson acumula vantagem considerável em relação ao segundo colocado e evidencia uma campanha onde a população pede por um governo das e dos que trabalham. Contraditoriamente, Edmilson fechou um arco de alianças perigoso e equivocado que contém até o PDT e a REDE. Não é possível governar para nossa classe com partidos burgueses, a frente popular não é o caminho para derrotar o bolsonarismo. Com uma campanha classista, a companheira Silvia Leticia, candidata a vereadora com apoio da Alternativa Socialista e LIS, é uma aposta real de um mandato socialista de luta.

Apesar do avanço eleitoral, o PSOL ainda mostra suas limitações: em Recife presta o papel deprimente de “conselheiro de esquerda” da candidatura do PT (com PMB e PTC) contra o PSB que, em geral, possuem o mesmo programa de gerenciar a cidade para os ricos. No Rio de Janeiro, Freixo, único com chances reais contra Paes ou Crivella, cometeu um equívoco grosseiro ao não manter sua candidatura. A população agora amarga entre duas candidaturas burguesas corruptas. Freixo se afasta cada vez mais, fazendo inclusive campanha para candidatura de partido patronal. Em várias cidades do país, o PSOL faz alianças com partidos burgueses. É necessário que o partido modifique esta linha.

Chamamos o voto no 50 e lutamos pra que o PSOL possa ser uma ferramenta na derrota do bolsonarismo e na superação dos projetos frente populistas. Mas ainda há caminho. Seguimos disputando com camaradas e agrupamentos no Bloco da Esquerda Radical.

Eleições antidemocráticas e pós-eleições

Esta eleição municipal ficará marcada como uma das mais antidemocráticas dos últimos anos. Cada vez menos a população tem acesso aos debates cruciais. Partidos como PCB, PSTU, UP e PCO vivem uma situação de semi-ilegalidade pela exclusão nos espaços e o PSOL tem um tempo cada vez mais suprimido. As grandes emissoras de TV acabaram com os debates com a desculpa da pandemia, mas seguem com a programação normal. É necessário usar o espaço que temos para denunciar esta situação e os ataques do governo Bolsonaro. O PSOL tem subaproveitado o espaço nesse sentido.

As Centrais Sindicais e partidos, PT/PCdoB, que antes das eleições não moveram um dedo contra Bolsonaro por causa da pandemia, agora cinicamente tocam suas campanhas de ruas – as candidaturas burguesas fazem uma verdadeira farra de contaminação de Covid-19. A desculpa cínica continuará com o recesso de fim de ano.

É preciso dar um basta na letargia. É hora de mobilizar, reconstruir a luta pela derrubada do governo Bolsonaro e apresentar a classe trabalhadora, setores minoritários e o povo pobre um programa de superação da crise com: 1) Fim do pagamento da “dívida” externa; 2) Taxação dos super-ricos; 3) Plano nacional de geração de empregos com obras públicas; 4) Aumento salarial de acordo com o Dieese (R$ 5.005,91 em outubro); 5) Planejamento nacional da saúde 100% pública no combate a Covid-19; 6) Anulação das reformas impopulares; 7) Plano de recuperação do bioma nacional; 8) Estatização dos setores estratégicos sob controle democrático da classe trabalhadora.

Nós, da Alternativa Socialista (PSOL), nos colocamos em defesa deste programa, na árdua tarefa pela frente da esquerda socialista e a tão necessária unidade de ação contra o governo Bolsonaro. Vote PSOL 50 e lute com a esquerda radical!

Nota:

[1] A segunda pesquisa Ibope realizada no período da campanha eleitoral indica uma queda na avaliação de Ótimo/Bom e aumento de Ruim/Péssimo em algumas capitais.


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