Em memória aos 34 anos de falecimento do mestre Nahuel Moreno, publicamos esta lembrança de Elías Rodríguez, histórico militante desde 1945, nos primeiros anos do Grupo Obrero Marxista (GOM), e que conviveu com Moreno até sua morte, em 25 de janeiro de 1987. Elías veio a falecer anos depois, em 13 de julho de 1995, aos 78 anos, deixando grande contribuição a nossa tradição de luta. O texto a seguir foi publicado originalmente no jornal do velho MAS, Solidariedad Socialista, nº 408, de 15/01/1992:

Ele era muito mais jovem e tinha boa aparência. Pensei, meio desconfiado, que se tratava de um estudante. Mas sua postura e simpatia me conquistaram imediatamente. Com um largo sorriso, Nahuel Moreno estendeu a mão, “Prazer em conhecê-lo, companheiro”. Para conversar com mais tranquilidade, fomos ao bar Los Patos y Lavardén, no Parque de los Patricios. Moreno estava me procurando há dias. Alguns anos antes, eu havia chegado a Buenos Aires vindo da cidade de Alta Itália, província de La Pampa. Trabalhei com minha família em uma fazenda. Meu pai era anarquista. Desde pequeno, meus companheiros me levavam pelas fazendas para distribuir o La Protesta, jornal anarquista.

Tinha 13 anos quando meu padrinho me trouxe a Buenos Aires. Fiquei como lavador de pratos. Depois trabalhei com vidros, na Picardo. Trabalhava no turno da noite: ganhava uma ninharia, nos queimávamos, jogavam as piores tarefas e não tínhamos com quem reclamar. Comecei a articular encontros em casa ou na pizzaria. Algum tempo depois, conseguimos realizar uma assembleia do turno em um cinema de Pompeya. Me elegeram representante e entrei no sindicato…

[Uma] companheira insistia que eu trabalhasse na fábrica dela, que era melhor, a Filial da Bunge & Born. Conseguimos uma recomendação do motorista do gerente e pude entrar com a condição de não praticar sindicalismo. Mas logo depois estava eu realizando reuniões e novamente eles me elegeram representante. Assim começamos a organizar a filial têxtil. O sindicato era uma das grandes organizações de trabalhadores que o peronismo, que na época surgia do governo, ainda não havia conseguido controlar com sua burocracia. Estava nas mãos dos socialistas amarelos. Comecei a ir ao sindicato e a participar da discussão sobre o acordo nacional.

Logo se espalhou a notícia de que na Bunge & Born havia um “louco” que organizava a fábrica. Um dia, um camarada [da categoria] de carnes veio falar comigo. Me disse que iria voltar com outro. Esse outro era Moreno. Que queriam?

Me perguntou sobre minha vida. Para quebrar a distância, disse que também era de uma cidade perto de La Pampa. Que era empregado e também estudante. Ele me perguntou sobre meu filho e a fábrica. Quando soube que tinha vindo recomendado pelo motorista do gerente, me disse: “Ele fez muito bem. Agiu assim para conseguir o trabalho e defendeu os interesses dos trabalhadores”. Finalmente, me disse que ele e seus amigos precisavam da ajuda de pessoas como eu, para ensiná-los a organizar a fábrica. Combinamos de nos encontrar dois dias depois.

No encontro seguinte, lembro que estava muito confiante no acordo [nacional] que discutíamos naquele momento. Mas Moreno me alertou: “Tenha muito cuidado, companheiro. A patronal está muito organizada. Também tem o governo. Se dão aumento, tirarão de volta com a inflação”. Lá comecei a ver como era o sistema.

Não sabia que aquele jovem, grande e amigável, que trabalhava tão bem e tinha muita simpatia dos trabalhadores, como eu, estava afastando o trotskismo argentino dos cafés e ligando-o ao movimento operário.

Outros companheiros do GOM começaram a me esperar na saída e a me procurar no sindicato. Lembro que um dia me levaram a uma palestra. Era um curso, no gramado do Parque Centenario, sobre feudalismo. Lá conheci todo o grupo fundador. Haviam trabalhadores e estudantes. Todos eles, companheiras e companheiros, estavam em fábricas.

Moreno novamente me encontrou. “Saudações, Elías”, disse-me. Me entregou o Manifesto Comunista e eu fiquei muito curioso. Moreno me deu a brochura O que quer a Quarta Internacional. Me perguntou o que eu achava. Disse a ele que em dez anos estaríamos no socialismo.

Ainda me lembro da resposta dele: “Você não pode fazer isso sozinho. É necessário um partido operário revolucionário, não só aqui, mas em todo o mundo, ou seja, a Internacional. Esse é o partido que o nosso agrupamento quer fazer: um partido dos trabalhadores, dirigido por você e pessoas como você.” É possível? Lhe perguntei. “Depende de você”.

Eu entrei no partido. Passaram os anos. Tivemos greves e lutas. Ganhamos e perdemos. Sofremos prisões e mortes. Aqui e no mundo.

Entrar no partido significou ser parte de uma equipe e trabalhar para convencer a muitos lutadores nas fábricas e sindicatos onde trabalhei, e em outros locais. Significou fazer contatos e simpatizantes, seguindo os ensinamentos de Moreno: “Não vá para ensinar, mas para escutar e aprender, fazer amigos sérios e criar um forte vínculo”. Significou ir aos domingos e muitas madrugadas a piquetes com jornais. Significou convidar muitos companheiros a palestras e cursos, como o convite que recebi na primeira vez, no Parque Centenario.

Dito tudo isso, significou que, todas as semanas reuníamos com a equipe de companheiros do partido. Essa reunião, onde discutíamos a situação nacional, as fábricas, frentes, as tarefas, onde discutíamos as lutas e como melhor intervir nelas, tem sido a base de funcionamento do partido que, com Moreno, conheci há 45 anos em Villa Pobladora.