Por V. U. Arslan

Em fevereiro de 2014, quando o Movimento Maidan saiu vitorioso, o controle sobre Kiev passou para as mãos dos oligarcas ucranianos, políticos carreiristas e suas lideranças pró-União Europeia/EUA, contando com grupos ultranacionalistas fanaticamente anti-russos.

Este repugnante flagelo em Kiev, com forte influência neonazista, gerou um conflito com a Rússia com apoio ocidental e, na guerra civil, Lugansk e Donetsk no leste da Ucrânia caíram nas mãos de separatistas pró-russos. A Crimeia, por outro lado, foi anexada pela Rússia como um pedaço de bolo. Pelo menos metade da sociedade ucraniana, no leste e no sul do país, se considera histórica e culturalmente próxima ou “pertencente à Rússia”. No entanto, após os erros dos fanáticos anti-russos em Kiev, Putin teve oportunidades muito favoráveis para intervir. Além da Crimeia e da região de Donbass, até Odessa e Kharkiv podem cair nas mãos pró-russas.

Situação atual

Sete anos se passaram. Enquanto a vasta maioria do povo ucraniano empobreceu durante esse período, os charlatões nacionalistas em Kiev não fizeram nenhum progresso, nem mesmo em Donbass, muito menos na Crimeia. As Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk, que foram auto-declaradas, repeliram o exército ucraniano com unidades paramilitares apoiadas pela Rússia. Como resultado, embora Kiev não quisesse como todo, teve que cumprir o Acordo de Minsk. Agora querem se livrar desse acordo.

Volodymyr Zelensky, que fala como o novo chefe de Kiev, embora na verdade seja uma figura bastante fraca, de acordo com seu antecessor Poroshenko, e o aparato de segurança que o cerca acredita que o equilíbrio militar e diplomático mudou.

1. Biden, que mais uma vez aumentou a agressão do imperialismo dos EUA contra a Rússia (também na China e no Irã), avisa a Kiev: “A OTAN está logo atrás de vocês!”. Não apenas Biden, mas também o Erdogan/AKP estão ocupados com a escalada de tensões em Kiev. Zelando pelo seu antigo passado imperial, a Grã-Bretanha também está organizando um exercício militar conjunto com o exército ucraniano neste verão. A esta altura, é preciso dizer que políticos “socialistas”, como Alexandra Ocasio-Cortez nos EUA e organizações “socialistas” como o DSA, que não puderam elogiar Biden e o Partido Democrata, fazem parte da máquina imperialista.

2. Embora o exército ucraniano, que está constantemente armado, seja muito fraco em comparação a Rússia, calcula poder destruir Donbass. Estão melhor equipados, mais motivados e têm forças especiais mais poderosas do que antes.

3. Semelhante à situação em Karabakh, estima-se que a Rússia não estará diretamente envolvida na região de Donbass, território da Ucrânia em termos legais. Portanto, os paramilitares de Donbass serão esmagados com uma força mais esmagadora (Bayraktar TB2 SİHAs).

Perspectivas

Putin está se concentrando na fronteira com a Ucrânia e na Crimeia, mobilizando a Marinha do Mar Negro. O exército bielorrusso, parceiro de Putin, também está concentrado na fronteira com a Ucrânia. A mensagem é clara: “Vocês estão cercados! O exército ucraniano não pode se defender e vamos cortar outro pedaço da Ucrânia!”. As “advertências” que o Kremlin envia constantemente empurrará Kiev a pagar um alto preço. Por outro lado, o exército ucraniano e as milícias da extrema-direita também se concentraram na fronteira com o Donbass. Espera-se que o primeiro movimento venha de Kiev, mas os movimentos de desmobilização da Rússia obviamente levantam dúvidas. Isso é evidente a partir do pedido de Kiev de adesão urgente à OTAN. Muitas opiniões em Kiev alertam que a OTAN não arriscará uma guerra pela Ucrânia, e hoje o otimismo recente parece ter desaparecido. Por outro lado, se Kiev for à guerra, espera-se que os conflitos, ainda de baixa intensidade, se transformem em uma guerra fundamental no Donbass. Dessa forma, o que fará a Rússia?

Existem duas possibilidades:

1. A Rússia intervirá na Guerra em Donbass provocando uma derrota histórica da Ucrânia.

2. Em vez de participar oficialmente na guerra, a Rússia tentará mais uma vez impedir o avanço do exército ucraniano apoiando as repúblicas de Donetsk e Luhansk.

O primeiro cenário seria uma grande mudança. Enquanto a Rússia traz esse movimento para a agenda como uma ameaça a Kiev, os EUA usam como carta na manga a OTAN para intimidar a Rússia; o navio de guerra no Mar Negro está enviando aviões de combate nos céus da Ucrânia. Para Biden, trata-se de um teste administrar essa crise pela possibilidade de derrota. Centenas de milhões de dólares transferidos para o exército ucraniano e milícias fascistas, armas entregues, desestabilizaram o Kremlin. Ao mesmo tempo, as ações de intimidação de Putin causaram desespero não apenas em Kiev, mas também em Washington.

Se a Rússia escolher o segundo cenário, ou seja, não participar diretamente da guerra, desta vez existe a possibilidade de que Donbass seja esmagado pelas forças de Kiev. Se Kiev puder ativar ataques por drones, Donbass não terá muitas chances, assim como a Armênia. Tal resultado será um grande golpe para Putin e, após Donbass, virá a Crimeia, à qual Moscou atribui importância vital. Portanto, a Rússia não pode permitir que Kiev conquiste Donbass. A justificativa para defender a vida e os direitos de 600 mil cidadãos russos que vivem em Donbass pode sempre dar à Rússia uma oportunidade de intervir.

Se Kiev não pode arriscar que a Rússia ganhe vantagem, deve contar com soluções diplomáticas provisórias de potências europeias (como a Alemanha) que não participaram do caudilhismo de Kiev, para salvar sua dignidade.

O sistema mundial capitalista imperialista continua a produzir guerras e a criar perigos enormes para toda a humanidade. O nacionalismo e a matança étnica, o fanatismo religioso e as guerras sectárias continuam a obscurecer os interesses dos governantes locais e globais. Em tempos de crise econômica, o risco de conflitos locais se transformarem em grandes guerras torna-se muito maior.