Reproduzimos abaixo um artigo escrito por Mariano Rosa, dirigente do MST (nosso partido irmão na Argentina) polemizando com o livro recentemente lançado pela ex-presidente argentina Cristina kirchner. Acreditamos que com a notícia divulgada nos últimos dias, de que Cristina poderá vir a ser candidata a vice-presidente nas próximas eleições do país vizinho, este debate se faz ainda mais necessário, não apenas no que se refere à Argentina, mas a muitos países da América Latina (como o Brasil), onde o chamado “progressismo” busca se rearticular depois da debacle sofrida pelos diferentes governos regionais representantes dessa orientação política nos últimos anos.


Como o de Kicillof¹ lançado há poucas semanas, “Sinceramente”, o livro da ex-presidenta é um material de campanha eleitoral. Está estruturado ao redor uma estratégia política: alimentar a expectativa em uma frente eleitoral de todo o peronismo para vencer Macri. Faz um balanço de sua gestão e antecipa uma orientação/justificação: o “caos” do Cambiemos²  deverá ser superado pela “ordem” kirchnerista. Nossa análise e crítica:

Em um trecho do livro CFK³ diz: (…) “Me pergunto o que fizemos de mal para que as pessoas elegessem um presidente como Mauricio Macri. Que os meios de comunicação hegemônicos tiveram um papel fundamental no engano e na confusão da sociedade? Sim, absolutamente… Isso é indiscutível. Porém também houve e há algo em nossa sociedade, em nós os argentinos e as argentinas que nos impede a construção de um país perdurável e vivível… O que sei eu!”

Começamos o artigo com esse extrato, porque define muito mais do que um balanço da derrota eleitoral em 2015. É, sobretudo, a concepção de uma espécie de “ingenuidade de massas” que explicaria o ascenso da direita ao governo. Nisto, CFK sintoniza com a visão continental do chamado progressismo.

García Linera, vice de Evo Morales e intelectual orgânico desta corrente, é quem melhor a explica: as direitas ascendem como resultado de uma batalha cultural perdida pelo progressismo. Vale dizer: não se trata de um lógico deslocamento social no voto como castigo a uma gestão que não preencheu as expectativas que alimentou, por administrar o capitalismo e não se animar a questionar este limite, senão por incompreensão de consciência. Seria o atraso das massas, a sua incompreensão do alcance do “progressismo” a explicação para a emergência do macrismo na Argentina. As pessoas, ao fim e ao cabo, têm a responsabilidade, não podem ir além. Por isso, agora, nesta “segunda temporada” do progressismo que pretende voltar, se coloca politicamente à centro-direita em seus compromissos e lealdades com as frações burguesas que mandam. Desenvolveremos mais este ponto.


O mito de origem: no princípio não foi o verbo, foi Duhalde

Todo projeto político tem seu mito de origem. Seria algo assim como um ponto de referência histórico que o justifica, o explica. Em um dos capítulos a autora narra como se costurou o acordo com Duhalde que significou o apoio do aparato do PJ (Partido Justicialista) e da burocracia sindical para que Néstor Kirchner fosse presidente. O interessante de ser ressaltado é a controvérsia apresentada por CKF sobre o assunto. Disse que ela não estava de acordo em pactuar com Duhalde devido ao estilo e à forma caudilhista que representaria esse personagem. Seu marido, entretanto, político pragmático no final das contas, o via como uma necessidade tática. Finalmente, reconhece que Néstor teve razão, ainda assim, o que chama a atenção é que em todo caso a delimitação com Duhalde é de “estilo” e “forma política”, e não de programa ou orientação geral. Se trata de uma disputa de camarilhas do mesmo bando de classe, na briga pela gestão burguesa do Estado, não de um antagonismo de perspectivas opostas. De fato, a autora não diz uma só palavra sobre a medida econômica mais anti-operária e confiscatória da renda popular como foi a desvalorização de 300% da moeda nacional frente ao dólar. Essa decisão traduzida para a classe operária significou uma perda de renda no mesmo percentual de 300%. Desfaça-mos as ambiguidades: não é nenhuma casualidade que CFK não mencione uma só crítica a essa decisão reacionária de reforço da mais-valia capitalista, já que junto ao default imposto pelas massas em 2001 e os preços internacionais com exceção da soja foram a chave do “milagre K” de 2003 a 2007. CFK remete ao período pós-Duhalde como o período “virtuoso da economia redistributiva” a serviço de alimentar a falsa expectativa de “voltar a recriar” com a sua candidatura em 2019 esse cenário. Nada mais distante da Argentina e do mundo da atualidade. Esta é a nossa advertência.

Da leis que foram e que não

CFK defende que o período de seu projeto no governo teve o mérito de “não votar nunca nenhuma lei anti-popular”. Como sempre, a desmemória opera como recurso político para encobrir ou justificar determinadas políticas. É óbvio que o macrismo é uma etapa superior do plano capitalista ofensivo sobre o país e toda a região, porém é bom também recordar algumas leis votadas, outras vetadas, as não analisadas e inclusive algumas revogadas pelo governo anterior, para contribuir à recuperação da memória desde o ponto de vista da maioria:

– Em 2011 no Congresso foi aprovada a Lei Anti-terrorista, afinada com as exigências dos EUA e os setores mais reacionários da sociedade, e orientada, claro, para reprimir as manifestações populares e os direitos democráticos.

– O bloco majoritário, situacionista, vetou a Lei de Glaciares em sua versão inicial e depois, a aprovação com relutância da segunda iniciativa, foi bloqueada em sua aplicação efetiva. Tudo a pedido das corporações mega-mineradoras, em especia a Barrick Gold.

– Nunca em 12 anos de gestão Kirchnerista se aceitou tratar da lei do aborto.

– Sempre, em todos os seus anos de governo, se negou a anular o imposto sobre os salários.

– Foi aprovado o acordo YPF-Chevron, com cláusulas de confidencialidade a favor desta multinacional predatória.

– Nunca foi aprovada a auditoria da dívida externa e o plebiscito sobre o seu pagamento ou desconhecimento.

Em resumo: comparar-se com o macrismo em matéria de progressismo legislativo parece fácil, porém o registro rigoroso da história de 12 anos de governo apresenta episódios reveladores. Deve-se pô-los em debate


Antes de mim o caos: a burocracia e o Vaticano, pilares da ordem K

No livro, a ex-presidenta apresenta uma caracterização do macrismo sintetizando-o como “o caos neoliberal”. Sugestivamente esta referencia a fórmula bastante próxima a duas reivindicações muito fortes: por um lado a Hugo Moyano e a CGT, ao que esconde ser um dos mais exemplares dirigentes operários da história argentina, e ao papa Francisco, do qual disse que teve desentendimentos com seu marido. Repassando: se Macri é o “caos”, o que vem é a “ordem” representada por CKF e seu projeto. Ao mesmo tempo, a perspectiva de ordem que antecipa tem na burocracia sindical e no Vaticano, dois pilares sobre os quais faz política reivindicatória desde agora em seu livro. Para além disso, um comentário a mais: Associar o macrismo ao caos supõe já antecipar uma justificação na “herança recebida” para fundamentar “os sacrifícios que terá que fazer” para restaurar a ordem alterada em um eventual retorno à presidência da autora do livro. Toda uma estratégia nada progressista, francamente.


Radiografia do país (capitalista) real: nossa plataforma de auto-defesa

 A luta social e política dos povos, a história, em definitivo, não segue um curso racional e lógico. Trotsky dizia que, se fosse assim, não fariam falta “nem ditaduras nem revoluções”. A consciência das massas no capitalismo hegemonicamente é imposta pela classe dominante que dá forma ao senso comum majoritário. O marxismo serve como método para identificar tendências positivas para a superação dessa consciência falsa dos que mandam. O partido que se apoia neste método, como o nosso, desenvolve uma tarefa chave: luta ideologicamente contra essa corrente majoritária propondo as tarefas que podem politicamente assegurar direitos à maioria social. É uma tarefa permanente de esclarecimento político e trabalha contra todo senso comum, antecipando prognósticos em disputa e saídas positivas. A estrutura de país – que não foi iniciada, mas consolidada pelo Kirchnerismo -, tem setores fundamentais da economia extragerizados e requer medidas de reorganização geral. Estas mudanças implicam uma confrontação com os donos dos bancos, com os monopólios formadores de preços, com as concessionárias de serviços públicos e contra toda a casta política, judicial, sindical e midiática. Não há caminhos de conciliação que consolidem conquistas permanentes para os 99%. Por isso, a tarefa para assegurar direitos a que nos propomos como perspectiva, os socialistas do MST, rechaça um bloco com o “pejotismo” político e sindical. Seria uma amarra para as medidas de que necessitamos. No bloco social necessário o sujeito é a classe trabalhadora em movimento, articulando um bloco do conjunto dos agredidos pelo capital, e no campo político, o sujeito é um partido que lute por unir a esquerda revolucionária para respaldar toda essa orientação. Esta é a linha que propomos, para a qual militamos ativamente.


Mariano Rosa (MST-Argentina)
Tradução: Luiz Domingues / AS-RS

  1. Axel Kicillof, economista argentino ligado ao Kirchnerismo.
  2. Coalização política de direita formada em 2015 e pela qual o atual presidente argentino, Mauricio Macri, foi eleito.
  3. CFK. Cristina Fernández Kirchner, ex-presidente argentina e pré-candidata a vice-presidente nas eleições deste ano.