No último final de semana em San Pablo, foi realizada a reunião da Coordenação Nacional da CSP-Conlutas. A seguir, apresentamos a entrevista que realizamos a uma de suas dirigentes. Silvia Leticia é professora, Coordenadora Geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Estado do Pará (SINTEPP – BELÉM/PA), da Secretaria Executiva Nacional (SEN) da CSP Conlutas e dirigente de Luta Socialista/Unidos Pra Lutar.

Silvia, conte-nos como nasceu e que inserção a CONLUTAS tem no movimento trabalhista brasileiro?

SL: A Central Sindical Popular-Conlutas, nasceu da ruptura política e sindical com a CUT (Central Única dos Trabalhadores) dirigida majoritariamente pela organização política do ex presidente Lula.  Ao assumir em 2003 a presidência da república Lula/PT passaram a aplicar medidas de ajuste fiscal beneficiando os banqueiros e o agronegócio atacando assim direitos dos trabalhadores/as. Uma dessas medidas foi a Reforma da Previdência Social que acabou com a igualdade de rendimentos entre servidores públicos e aposentados do próprio setor. A CUT além de apoiar esse ataque aos direitos do funcionalismo público, também apoiou o fim da estabilidade no emprego dessa categoria. Para fazer frente a essa situação já que a CUT se negava a mobilizar os trabalhadores/as, vários sindicatos e federações organizaram o Fórum Nacional de Lutas contra as reformas do governo PT/CUT. A organização desse Fórum se estendeu por todos os estados brasileiros daí surgiu a Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas). Em 2010 surgiu a CSP Conlutas.

Em seus primeiros anos de existência a CSP Conlutas foi um polo muito atrativo de nucleação e organização do sindicalismo combativo e antiburocratico brasileiro, procurou desde sua origem organizar não somente sindicatos de empregados públicos, mas também da iniciativa privada, oposições sindicais, minorias de diretorias sindicais, bem como, movimentos de opressão e também da juventude.

Entretanto devido a política hegemonista de sua direção (PSTU/LIT) de impor uma orientação política de forma pouco democrática, nos últimos anos tem feito a Central se paralisar, perder iniciativas e cometer erros importantes quando da última luta contra a reforma da previdência do governo Bolsonaro.

Como você avalia o último congresso e a reunião de coordenação que acaba de concluir

SL: A perda de oportunidades políticas e o balanço critico que vários sindicatos fizeram da direção da CSP-Conlutas no último Congresso estiveram concentrados justamente em como foi ruim a forma como a direção da central encarou a luta contra a reforma da previdência de Bolsonaro. Em vez de privilegiar a organização pela base das categorias, com forte denúncia do governo e de que se fossemos a luta se poderia derrotar o governo, nossa central se deixou levar pela organização, a partir da CUT, do fórum de centrais sindicais, cujo objetivo central foi o de fazer emendas ao projeto do governo no Congresso Nacional. Essa política burocrática levou o governo a aprovar a reforma da previdência no Congresso Nacional sem sequer uma mobilização de rua ou greve geral no dia de sua votação.

Porém, atribuir, somente a direção majoritária da CSP Conlutas (PSTU) todo esse desarme, seria um grande erro. Assim como ocorre em grande parte da esquerda mundial, no interior da Central organizou-se toda uma corrente política derrotista, que dirigida pela agrupação política e sindical Resistência (ruptura do PSTU) pouco ajudou no enfrentamento dessa política superestrutural da Central. Essa corrente tem como análise que existe no mundo uma onda conservadora, que o governo Bolsonaro é bonapartista e que sua vitória produziu uma mudança na situação política brasileira desfavorável a luta dos trabalhadores, o que é um grande equívoco. Esse setor cético e derrotista tem como linha o abandono completo da disputa da direção do movimento de massas no país, sua orientação central é a construção de frentes únicas com a burocracia sindical. Ocorre que a burocracia sindical em nosso país, assim como todas as burocracias sindicais no mundo, não quer mobilizar os trabalhadores, ela alimenta no movimento de massas a ilusão de que nas eleições presidenciais de 2020 ela voltará ao comando do país através do ex presidente Lula, e no caso de seu impedimento legal, com alguém que defenda seus interesses de burocracia sindical.

Portanto, o hegemonismo burocrático e o ceticismo derrotista se converteram em faces da mesma moeda, isso abriu uma crise muito grande pela disputa do pequeníssimo aparelho da CSP-Conlutas, fazendo com que setores não alinhados a essas duas correntes se afastassem. O último congresso da central é bem verdade que voltou resoluções políticas importantes tais como: a luta contra o ajuste fiscal do governo, a denúncia da enorme crise social que assola nosso país, a denúncia da corrupção e o apoio à luta dos povos originários e das populações tradicionais, a defesa do meio ambiente, das mulheres, dos negros, dos LGBTHI, também votou a construção de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora para 2020 para organizar a luta contra o governo e os patrões.

Entretanto, até agora essas medidas não passaram de uma saudação à bandeira, pois estamos paralisados sem campanhas políticas algumas, isso em meio a greves importantes com a dos Petroleiros, a da anunciada greve dos correios e da educação nacional para o mês de março. Não temos cartazes, panfletos, nem calendário de assembleias nas categorias que ajudem a impulsionar com muita força esse calendário.

A reunião da Coordenação Nacional da Central ocorrida entre os dias 14 e 16/02/2020 foi a reprodução em menor escala dessa disputa, se reafirmou praticamente todas resoluções aprovadas no último Congresso da CSP Conlutas, porem ainda nos encontramos em completa paralisia política e de falta de iniciativas.

Seu Chapa se tornou a segunda força da Central, por que esse crescimento?

SL – Em base a essas críticas a Tendência Sindical da qual faço parte, a UNIDOS PRA LUTAR que é organizada pelos militantes de Luta Socialista/PSOL e ativistas sindicais independentes, definiu por fazer a proposta da construção de um polo político e sindical independente ao hegemonismo do PSTU e também do derrotismo e ceticismo da Corrente Resistência. Nossa proposta foi de construir uma alternativa de direção interna nas instancias de direção CSP Conlutas e da qual se somaram os companheiros/as de mais três organizações: o Movimento Esquerda Socialista (MES), Liberdade e Revolução Popular (LRP) e Ação Popular Socialista (APS) todas organizações políticas do PSOL.

Fomos a segunda chapa mais votada dentre as quatro (4) que se apresentaram nos transformando assim na segunda força política da central, a LS/Unidos Pra Lutar dobrará sua presença da Secretaria Executiva Nacional da CSP Conlutas. Batalharemos juntos com os companheiros que conformaram a chapa CSP Conlutas: Autônoma e Democrática, nome de nossa chapa, para que a mesma seja de fato um polo político ativo de intervenção na luta de classes, procurando em todos os espaços dinamizar e fortalecer a CSP Conlutas como alternativa de direção para o movimento sindical brasileiro. 

Quais são as propostas do Unidos Pra Lutar pela Conlutas e pela disputa no Movimento Trabalhista?

SL: Em primeiro lugar construir um amplo processo de mobilização, unificação das lutas na perspectiva de uma Greve Geral contra o governo Bolsonaro/Mourão, contra as medidas de ajuste fiscal, por aumento geral de salários, redução da jornada de trabalho sem redução de salários (trabalhar menos para que todos trabalhem), Piso Salarial Nacional do DIEESE* para todas as categoriais de trabalhadores/as, congelamento das tarifas de luz elétrica, telefones, água, transporte urbano, internet, congelamento dos produtos da cesta básica, etc. Em segundo lugar queremos ajudar na organização do Encontro Nacional da Classe Trabalhadora que possibilite unificar desde a base das categorias os trabalhadores brasileiros da cidade e do campo na perspectiva de construir um plano unificado de luta e um programa que coloque o país em ruptura com o imperialismo, o FMI e a serviço dos trabalhadores e do povo pobre.

*DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, é órgão responsável em auxiliar o movimento sindical e social brasileiro nas campanhas salariais em contraposição aos órgãos oficias do governo.


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