Reproduzimos a reportagem do companheiro Alejandro Bodart sobre a fundação da IV Internacional, realizada na última quinta-feira, 3 de setembro, no Panorama Internacional, programa semanal da Liga Internacional Socialista – LIS.

Em um dia como hoje, 3 de setembro de 1938, a Quarta Internacional foi fundada em uma apressada reunião clandestina fora de Paris. Delegados de organizações de onze países se reuniram na casa do militante da oposição de esquerda, Alfred Rosmer. Organizações de 17 outros países não puderam chegar ao local, mas aderiram à nova organização e ao seu programa.

O mundo passava por uma crise aguda: a ascensão do nazismo na Alemanha, a guerra civil na Espanha estava sendo conduzida a um beco sem saída pelo stalinismo, o acúmulo de contradições levaria em pouco tempo à Segunda Guerra Mundial… Mas o congresso fundacional da Quarta não pode discutir nada disso. Sob intensa perseguição do stalinismo, se limitou a aprovar um programa e eleger uma secretaria para encerrar a reunião antes de ser descoberta e atacada. O filho de Trotsky, principal líder da oposição de esquerda na Europa e encarregado pelos preparativos do congresso, Leon Sedov, havia sido assassinado em Paris alguns meses antes. Dias antes do evento, o corpo de Rudolf Klement, outro dos principais organizadores, que havia desaparecido um mês antes, foi encontrado no rio Sena, acontecimento que quase cancelou o congresso.

Na verdade, vários setores do reagrupamento comunista que romperam com o stalinismo e faziam parte da oposição de esquerda internacional, acreditavam que não era o momento certo para fundar uma nova internacional.

A Primeira Internacional foi fundada em 1864 por Marx e Engels no meio da primeira ascensão da classe trabalhadora, alimentada pela revolução industrial europeia.

A Segunda Internacional, depois da morte de Marx, mas com a participação de Engels, foi fundada em 1889. Surgiu com base na expansão capitalista no final do século 19, na industrialização da Alemanha e no crescimento dos sindicatos e partidos de massas dos trabalhadores.

A Terceira, fundada em 1919 por Lênin e Trotsky, foi impulsionada pelo triunfo da revolução russa e a ascensão global que este acontecimento gerou.

Quando Trotsky propôs o lançamento da Quarta, não houve consenso. O fascismo veio da derrota da classe trabalhadora, com a ajuda das traições do stalinismo, na Itália, na Alemanha e estava prestes a conseguir o mesmo na Espanha. No entanto, foi precisamente o triunfo de Hitler na Alemanha que convenceu Trotsky, por um lado, de que a Terceira Internacional já era irrecuperável e, por outro, que a fundação de uma nova Internacional era necessária e urgente.

Desde sua expulsão da URSS em 1929, Trotsky começou a organizar a oposição de esquerda em escala internacional. No ano seguinte foi realizada uma primeira conferência internacional dos agrupamentos, aprovando uma secretaria composta por Alfred Rosmer e León Sedov.

Em 1932, uma nova conferência foi realizada na Dinamarca, da qual o próprio Trotsky pôde participar. No ano seguinte, outra conferência estabeleceu as resoluções dos quatro primeiros congressos da Terceira Internacional como base programática. Até então, embora fossem expulsos e excluídos dos partidos da Terceira e perseguidos pelo stalinismo, atuavam como uma corrente de oposição e mantinham a orientação de recuperar os Partidos Comunistas e a Terceira Internacional.

Somente após a vitória de Hitler, sem resistência ativa por parte do Partido Comunista da Alemanha, que havia rejeitado qualquer política de frente única contra o fascismo, foi resolvida a formação de uma nova internacional.

Trotsky caracterizou que o mundo se encaminhava para uma Segunda Guerra Mundial, que o stalinismo, com a política que vinha empregando, teria o mesmo papel traiçoeiro que a Segunda Internacional desempenhou antes da Primeira Guerra Mundial e que, portanto, os revolucionários precisavam de seus próprios partidos e sua própria organização internacional para influenciar as revoluções que viriam.

Nesse contexto, uma nova conferência aconteceu em Paris em agosto de 1933, na qual participaram várias correntes de oposição ao stalinismo. O documento aprovado dessa reunião expressava a vontade de avançar para uma nova organização internacional, mas a iniciativa foi retardada pela perseguição do stalinismo, dos fascistas, e pelas vacilações de setores que não estavam convencidos de avançar.

A primeira Conferência para a Quarta Internacional se reuniu em Genebra em julho de 1936 e o congresso de fundação finalmente aconteceu dois anos depois, quando a eclosão da Segunda Guerra Mundial já estava próxima.

O texto de Trotsky que aprovou a reunião como base programática da nova organização é conhecido pelo movimento revolucionário internacional como o Programa de Transição. Seu título, “A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional” apresentava uma caracterização do caminho que o mundo estava tomando e que se confirmaria em seus traços fundamentais.

Afirmou que as forças produtivas pararam de se desenvolver, que a crise econômica sem saída levaria a uma nova catástrofe humanitária levando a uma nova guerra mundial e que, se o triunfo do socialismo não ocorresse, a própria civilização humana estaria em perigo. Tanto a Guerra Mundial que estourou no ano seguinte como a crise atual validaram essa previsão.

Mas o Programa de Transição também afirmava que, embora as condições objetivas para o triunfo da revolução fossem mais do que maduras, não bastariam se o fator subjetivo, a organização revolucionária e a ação do proletariado não existissem. A experiência da revolução russa impôs a conclusão decisiva de que, sem o partido revolucionário à frente, a revolução socialista fracassa e retrocede.

Trotsky tomou isso como um eixo central, enterrando para sempre a divisão que a social-democracia fazia entre o programa mínimo de reformas imediatas e o programa máximo, de objetivos socialistas abstratos para um futuro indeterminado. Substituiu por um novo método de elaboração e intervenção política que, partindo das necessidades imediatas do proletariado, o leva a um confronto global com o capitalismo. Este método provou sua utilidade no desenvolvimento da luta de classes e na construção de partidos revolucionários até hoje.

Tragicamente, Trotsky seria assassinado pelo stalinismo dois anos após a fundação da Quarta. A distância entre sua experiência e habilidade e a dos quadros que continuaram seu trabalho era enorme. Para piorar as coisas, muitos deles morreriam durante a guerra nas mãos da Gestapo de Hitler ou da GPU de Stalin. A Quarta foi dizimada e paralisada durante a guerra. Quando se reorganizou ao final de tudo, seus líderes revelaram não estarem à altura das circunstâncias difíceis.

Devido à falta de uma alternativa revolucionária organizada, as revoluções que varreram a Europa e o mundo após a guerra não derrubaram a burocracia stalinista. Ao contrário, esta saiu fortalecida e prestigiosa por ter derrotado Hitler. Foi capaz de se colocar à frente das revoluções, detê-las, desviá-las, traí-las e cumprir seu pacto com o imperialismo para reconstruir os Estados burgueses na Europa Ocidental após a guerra.

As circunstâncias difíceis foram agravadas por uma série de erros tremendos por parte da direção da Quarta, que acabou se dividindo e dispersando o movimento trotskista. Algumas caíram no oportunismo, seguindo as variantes do stalinismo que surgiram. Outras foram isoladas pelo sectarismo, marginalizando-se dos processos de massa. Outras abandonaram a estratégia de construir um partido revolucionário ou permaneceram na construção de partidos nacionais, abandonando a indispensável tarefa de construir o internacional.

Os que seguiram lutando para construir um partido revolucionário mundial o fizeram separadamente, construindo correntes internacionais centradas em um partido mais desenvolvido com grupos afins em outros países.

A fundação da Quarta teve o enorme mérito de ter preservado as conclusões e a tradição do marxismo revolucionário. Aqueles de nós que mantiveram essa prática viva têm o mesmo mérito. Mas não é suficiente. Hoje, diante da catastrófica crise do capitalismo mundial, apenas comparável àquela que passou o mundo na época da fundação da Quarta, recuperar seu legado exige superar as limitações que tivemos.

Este é o desafio que a Liga Internacional Socialista – LIS enfrenta ao tentar reagrupar os revolucionários que vêm de diferentes experiências e tradições, de diferentes correntes do trotskismo, com base em um programa de princípios para a revolução socialista. A estratégia de construir partidos leninistas e uma internacional revolucionária.

Ao compromisso de realizar um internacionalismo militante, ativo, de campanhas e intervenção na luta de classes. Sabendo que nestas bases podemos ter divergências que podem ser debatidas, onde podemos aprender uns com os outros e que só assim poderemos construir uma verdadeira organização revolucionária mundial que aspira a liderar a revolução socialista.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *