Na madrugada do dia 31 de março de 1964 as tropas do general Olympio Mourão Filho saiam do estado de Minas Gerais e marchavam rumo o Rio de Janeiro. Tinha início um dos capítulos mais dolorosos e vergonhosos da história do Brasil: a ditadura civil-militar que por 21 anos manteve os trabalhadores, a juventude e todo o povo sob um regime de censura, repressão e ataque os direitos humanos básicos.

  A farsa de uma possível “ameaça comunista” é mais uma mentira contada até hoje por aqueles que defendem a ditadura para justificar a instalação deste regime antidemocrático. O que houve sim, foi um consórcio entre as cúpulas reacionárias da Forças Armadas, a mídia burguesa, empresários e políticos de direita, para implementar um programa de submissão total do Brasil aos interesses do imperialismo norte-americano. Existe vasta documentação que comprova, inclusive, a ativa participação do governo dos Estados Unidos na articulação do Golpe, que foi apenas um de vários que viriam a se seguir na América-Latina entre as décadas de 1960/1980, todos financiados pelo “Tio Sam”.

 O fato do presidente Jair Bolsonaro (PSL) determinar a comemoração desta data merece todo o nosso repúdio, porque além de explicitar todo desprezo do presidente pelas liberdades democráticas, trata-se de um atentado à memória de todas e todos aqueles que sofreram na pele com o terrorismo de Estado institucionalizado durante os chamados “anos de chumbo”, e uma ofensa aos familiares das vítimas. Ao mesmo tempo, vindo daquele que não demonstra qualquer constrangimento em prestar homenagens às ditaduras de Augusto Pinochet no Chile, Alfredo Stroessner no Paraguai, e a torturadores brasileiros como Carlos Alberto Brilhante Ustra, não chega a ser uma surpresa.

A verdade é que o governo de Bolsonaro e dos ditadores militares tem muita coisa em comum. Assim como Bolsonaro que diz defender o “Brasil acima de tudo” e vai a Washington oferecer o país de bandeja para Trump, eles também se diziam nacionalistas, mas enquanto hasteavam a bandeira do Brasil e entoavam o hino nacional, abriam as portas para o capital internacional, e permitiam que mineradoras estrangeiras viessem explorar terras brasileiras, degradando o meio-ambiente, expulsando milhares de indígenas de suas terras, e promovendo um verdadeiro massacre contra os povos originários e camponeses pobres. Nesse sentido, o total desrespeito do governo Bolsonaro pelos direitos povos indígenas também encontra precedentes no período do regime militar.

 Assim como os militares, Bolsonaro também agita seguidamente a bandeira da “ameaça comunista”. Por mais falsa que fosse essa ameaça na década de 1960, ainda havia o contexto da Guerra Fria, porém buscar ressuscitar o mesmo discurso demagógico em pleno 2019, como se estivesse salvando o país de uma “ditadura socialista” é uma tentativa ridícula de manter a sua base de sustentação através de uma verdadeira luta contra moinhos de vento, apostando em uma possível guerra ideológica, ou de “costumes”, já que se expusesse nua e cruamente o seu verdadeiro programa de brutal ataques aos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, sem dúvida nenhuma, ele não teria sequer chegado ao segundo turno das eleições de 2018. Além disso, a pretensa guerra contra a corrupção de Bolsonaro, da mesma forma como a que os militares defendiam antes de tomar de assalto o poder, já se mostra outra peça de ficção. Cercado de ministros corruptos, em um partido onde abundam denúncias de candidaturas irregulares e com um filho com ligações no mínimo suspeitas com as milícias do Rio de Janeiro, além do possível uso de laranjas para desviar dinheiro na época em que era deputado estadual pelo estado do Rio.  No caso da ditadura, apesar da censura da época, hoje se sabe muito bem dos negócios espúrios com empreiteiras na construção de obras faraônicas, como a Transamazônica, a ponte Rio-Niterói, ou a usina de Itaipu, por exemplo.

Como se isso não bastasse, milhares de pessoas entre mortos, presos e torturados, sofreram uma perseguição implacável do Estado ditatorial, simplesmente por se colocarem contra o regime. Não existe nada a ser comemorado em tudo isso, pelo contrário: devemos lembrar para exigir justiça e para que jamais volte a se repetir.

No dia 24 de março, uma multidão saiu às ruas na Argentina para denunciar o golpe do general Videla em 1976, exigindo justiça para os mortos e desaparecidos e a responsabilização dos agentes assassinos do Estado. No Brasil, a chamada Lei da Anistia de 1979, isentou os agentes da ditadura de qualquer responsabilidade pelos crimes cometidos. Defendemos a revisão dessa lei e a responsabilização de todos os assassinos e torturadores.

Ditadura Nunca Mais!


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